quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O Que é o Islam

Rick Rood

Não é todo dia que a religião aparece como matéria de capa nos jornais atuais, particularmente com certa regularidade. Mas nos últimos 20 anos, uma religião talvez tenha sido matéria de capa mais do que qualquer outra – a religião do Islam. O Islam reivindica um bilhão de seguidores em todo o mundo. Não apenas é a religião que cresce mais rápido do mundo, mas sua influência toca virtualmente cada aspecto da vida – não apenas espiritual, mas político e econômico também. E mais, sua influência está se fazendo sentir cada vez mais perto de casa. Atualmente há quase 5 milhões de muçulmanos nos E.U.A., e mais de 1.100 mesquitas ou centros islâmicos.

O que ensina o Islam? Em que os ensinos do Islam são semelhantes aos do Cristianismo? Em que são diferentes? Qual deve ser nossa atitude em relação ao Islam, e àqueles que seguem esta poderosa religião? Estas são algumas questões que queremos tratar neste ensaio.

A História do Islam

Primeiro, queremos considerar a história do Islam. O Islam foi fundado no começo do século sétimo por Muhammed. Quando tinha 40 anos de idade, em 610 A.D., Muhammed afirmava receber mensagens de Deus. Essas mensagens foram mais tarde compiladas e registradas no Corão – o livro sagrado do Islam.

Por volta desse mesmo tempo, Muhammed começou a pregar contra a ganância, a opressão econômica e a idolatria que infestavam os árabes. Ele convocou as muitas facções árabes a se unirem sob a adoração a Allah, o deus principal do panteão árabe de divindades. Embora sua mensagem fosse inicialmente rejeitada, por volta do ano 630 ele havia conseguido obter o controle de Meca, o centro econômico e religioso da península árabe.

Embora Muhammed morresse dois anos depois, o movimento religioso-político que ele fundou rapidamente se espalhou por todo o mundo árabe, e mais além. Por volta de 750 A.D., o império islâmico se estendia da Espanha, no ocidente, até a Índia, no oriente. Nos séculos que se seguiram, o Islam penetrou mais na África e Ásia, estendendo-se até as Filipinas. Durante sua “era dourada”, o Islam reivindicava alguns dos filósofos e matemáticos mais refinados do mundo. Foi durante esse tempo também que o Islam e o Cristianismo entraram em choque como conseqüência das Cruzadas, que reclamavam a Terra Santa dos muçulmanos.

Começando por volta de 1500, e acelerando após a revolução industrial dos séculos 18 e 19, o Islam sentiu a crescente influência das potências européias. Eventualmente, grandes porções do mundo muçulmano foram colonizadas por países europeus. Esta dominação política e econômica pela Europa continuou até o fim da 2ª. Guerra Mundial, após o que os países muçulmanos começaram a obter a independência política. Com a descoberta e o desenvolvimento das vastas reservas de petróleo em muitas terras muçulmanas, a independência econômica subitamente também foi atingida. Por fim, o Islam teve em seu alcance tanto a oportunidade como os recursos para se reafirmar como uma força poderosa no mundo. Após estar na defensiva por muitos séculos, o Islam agora estava na ofensiva!

A Situação Atual do Islam

Neste ponto, devemos discutir a situação atual do Islam. Ao fazer isto, é importante perceber que o Islam não é um sistema monolítico. Embora todos os muçulmanos derivem sua inspiração de Muhammed e do Corão, muitos grupos e movimentos são identificáveis dentro do Islam.

A divisão mais óbvia é entre o Islam sunita e xiita. Os sunitas (que compõem cerca de 90% de todos os muçulmanos) derivam seu nome do fato de que consideram tanto o Corão como a “sunna” ao estabelecer a conduta muçulmana apropriada. A “suna” é o comportamento ou exemplo de Muhammed e da comunidade muçulmana primitiva. É claro que existem muitas subdivisões entre os sunitas, mas todas se identificam como sunitas.

O outro maior grupo de muçulmanos são os xiitas (que compõem cerca de 10% de todos os muçulmanos e residem principalmente no Iraque e no Irã). A palavra xiita significa “partidário”, e refere-se ao fato de que os xiitas são “partidários de Ali”. Ali foi o genro e sobrinho de Muhammed, e um dos primeiros califas ou sucessores de Muhammed como líder do povo muçulmano. Os xiitas acreditam que o líder do Islam deve estar entre os descendentes de Ali, o qual acreditam possuir uma unção divina especial para esta tarefa. O último destes líderes divinamente designados, ou “imames”, a maioria dos xiitas acreditar estar “oculto” em outro plano de existência. O aiatolá Khomeini era considerado um porta-voz deste “imam oculto”.

Um terceiro grupo que deve ser mencionado são os sufitas – os muçulmanos (tanto entre os sunitas como xiitas) que buscam mais uma experiência mística com Deus do que um conhecimento meramente intelectual acerca dEle, e que também são dados a várias práticas supersticiosas.

Além dessas divisões dentro do Islam, também se deve mencionar as atitudes entre os muçulmanos em relação ao seu contato com o mundo ocidental em tempos modernos. Embora a situação seja muito mais complexa do que sejamos capazes de lidar neste panfleto, duas tendências principais têm se evidenciado no Islam.

Uma tendência é no sentido de certo grau de acomodamento e ajuste com o Ocidente e os modos de vida modernos. Esta tem se manifestado mais obviamente em países como a Turquia, que tem instituído extensamente formas seculares de governo e modos de vida ocidentais, embora mantendo as práticas religiosas islâmicas.

A tendência oposta é no sentido de um retorno a uma abordagem mais tradicional à vida islâmica e uma rejeição dos modos ocidentais e modernos. A expressão mais extremada desta tendência é manifesta nas várias formas de fundamentalismo islâmico, que insistem na implementação da lei islâmica (chamada de Sharia) em cada aspecto da vida. Os fundamentalistas têm sido bem sucedidos na Arábia Saudita, Irã, Paquistão e Sudão; mas estão ativos virtualmente em cada país islâmico, às vezes recorrendo à violência e ao terrorismo na tentativa de implementar sua agenda.

Para compreender este poderoso movimento religioso e político, é importante conhecer as várias divisões e atitudes dentro do Islam e as crenças básicas do Islam.

As Crenças Básicas do Islam

Embora as crenças dos muçulmanos em todo o mundo sejam quase tão diversas como entre os cristãos, existem seis artigos básicos de fé comuns a praticamente todos os muçulmanos.

O primeiro deles é que não há outro Deus além de Allah. Os árabes pré-islâmicos eram politeístas. Mas Muhammed conseguiu levá-los a se dedicarem exclusivamente ao deus principal do panteão, o qual chamavam de Allah (que significa simplesmente Deus). Adorar ou atribuir a divindade a qualquer outro ser é considerado shirk, ou blasfêmia. O Corão menciona inúmeros nomes de Allah, e esses nomes freqüentemente se acham nos lábios de muçulmanos devotos que acreditam que eles possuem um poder quase mágico.

O segundo artigo de fé é a crença em anjos e jinn. Jinn são espíritos capazes de fazer tanto ações boas como más, e de possuir seres humanos. Acima do nível dos jinn estão os anjos de Deus. Dois deles são acredita-se que acompanham a cada muçulmano, um à direita para registrar as boas ações, e outro à esquerda para registrar suas más ações.

O terceiro artigo é a crença nos livros sagrados de Deus, dos quais 104 são referidos no Corão. Entre os principais estão a Lei dada a Moisés, os Salmos dados a Davi, o Evangelho (ou Injil) dado a Jesus, e o Corão dado a Muhammed. Concebe-se que cada um deles comunicava a mesma mensagem básica da vontade de Deus ao homem. Discrepâncias óbvias entre as Escrituras judaicas e cristãs e o Corão (particularmente com referência a Jesus e Muhammed) foram explicadas por Muhammed em sua sugestão de que a Bíblia foi adulterada por judeus e cristãos.

O quarto artigo de fé é a crença nos profetas de Deus, através dos quais Allah apelou ao homem para que seguisse a Sua vontade conforme revelada em Seus livros sagrados. Não há acordo quanto ao número de profetas que existiram – alguns dizem centenas de milhares. Entre eles estavam Adão, Noé, Abraão, Moisés e Jesus. Mas todos concordam que Muhammed foi o profeta de Deus final e supremo – o “selo” dos profetas. Embora o próprio Muhammed dissesse que era um pecador, existem muitos muçulmanos em todo o mundo que parecem chegar perto de adorá-lo.

O quinto artigo de fé é a crença na absoluta vontade predestinatória de Allah. Embora alguns muçulmanos tenham modificado um pouco esta doutrina, o Corão parece apoiar a idéia de que todas as coisas (tanto boas como ruins) são o resultado direto da vontade de Deus. Aqueles que concluem que o Islam é uma religião fatalista têm bom motivo para fazer isto.

O sexto e último artigo de fé é a crença na ressurreição e no juízo final. No final da história, Deus julgará as obras de todos os homens. Aqueles cujas boas ações pesarem mais que suas más ações entrarão no paraíso (retratado em termos um tanto sensuais). Os demais serão consignados ao inferno. A característica proeminente da crença islâmica, além do seu forte monoteísmo, é que se trata de uma religião de obras humanas. A posição de alguém com respeito a Allah é determinada pelo seu sucesso em guardar Suas leis.

As Práticas Básicas do Islam

Agora queremos enfocar as mais importantes dessas obras. Elas se resumem no que geralmente chamam de os “Cinco Pilares do Islam”.

O primeiro pilar é a recitação do credo: “Não há outro Deus além de Allah, e Muhammed é o seu profeta”. Acredita-se geralmente que recitar este credo na presença de duas testemunhas é constituir-se a si mesmo um muçulmano – alguém em submissão a Deus. Naturalmente, a palavra Islam significa simplesmente “submissão”.

O segundo pilar é a prática regular de orações. Os muçulmanos sunitas devem recitar orações específicas acompanhadas por movimentos específicos, cinco vezes ao dia (os xiitas fazem isto apenas três vezes por dia). Todos os muçulmanos homens também são obrigados a se reunirem para oração comunitária (e sermão) toda sexta-feira ao meio-dia.

O terceiro pilar é dar esmolas. Nascido ele mesmo órfão, Muhammed era profundamente preocupado com os necessitados. O Corão exige que 2,5% das rendas de alguém sejam dadas aos pobres ou para a propagação do Islam.

O quarto pilar do Islam é o jejum durante o mês de Ramadan (o quinto mês lunar do calendário muçulmano, durante o qual diz-se que Muhammed recebeu a sua primeira revelação de Deus, e durante o qual ele e seus seguidores fizeram sua histórica viagem de Meca para Medina). Durante este mês, os muçulmanos com boa saúde devem renunciar a todo o alimento e líquido durante as horas do dia. Este jejum promove a auto-disciplina do muçulmano, a dependência de Allah, e a compaixão pelos necessitados.

O quinto pilar é o Hajj, ou peregrinação a Meca. Se possível, todo muçulmano deve fazer uma peregrinação a Meca uma vez durante sua vida. Ela pode ser feita apropriadamente somente em alguns dias durante o último mês do ano muçulmano. O Hajj promove as idéias de unidade mundial e igualdade entre os muçulmanos. Mas também contém muitos elementos de atividades prescritas que são de origem pagã.

Um sexto pilar, o da jihad, é geralmente acrescentado (o termo significa “esforço”, ou “luta” pela causa de Deus). A jihad é o meio pelo qual aqueles que estão do lado de fora do lar do Islam são trazidos para o seu aprisco. A jihad pode ser por persuasão, ou pode ser por força ou “guerra santa”. O fato de que qualquer muçulmano que morre em uma guerra santa tem o seu lugar assegurado no paraíso fornece um forte incentivo à participação!

Os muçulmanos em todo o mundo consideram esses pilares como orientação para moldarem sua prática religiosa. Mas, em acréscimo a esses pilares, existem inúmeras leis e tradições contidas no Hadith – literatura que foi compilada após o término do Corão, a qual afirmam conter o exemplo e as declarações de Muhammed sobre muitos temas. Porque as leis do Hadith e do Corão cobrem virtualmente cada área da vida, o Islam é bem referido tanto como um modo de vida todo-abrangente, como uma religião.

Uma Perspectiva Cristã sobre o Islam

Neste ponto, é apropriado apresentar uma breve avaliação do Islam a partir de uma perspectiva cristã.

A princípio, deve-se declarar que existe muita coisa no Islam que o cristão pode afirmar. Entre as doutrinas islâmicas mais importantes que podem ser genuinamente afirmadas pelo cristão estão a sua crença em um Deus, seu reconhecimento de Jesus como nascido de uma virgem, profeta sem pecado e messias de Deus, e sua expectativa de uma ressurreição e juízo futuros.

Existem, porém, algumas áreas de diferença muito significativas. Mencionaremos apenas algumas. Primeiro, a percepção muçulmana de Deus de modo algum é a mesma que a revelada na Bíblia. O Islam retrata Deus, em última análise, como irreconhecível. Na verdade, no Corão, Allah revela a Sua vontade, mas Ele nunca Se revela a Si mesmo. Ele também nunca é retratado como um Pai para o Seu povo, como o é na Bíblia.

Segundo, embora Jesus seja apresentado como um profeta que operava milagres e messias, e inclusive sem pecado, o Islam nega que Ele seja o Filho de Deus ou o Salvador do mundo. Na verdade, nega-se que Jesus de algum modo tenha morrido, muito menos pelos pecados do mundo.

Terceiro, embora a humanidade seja descrita como fraca e tendente ao erro, o Islam nega que o homem seja um pecador por natureza e necessitado de um Salvador, como a Bíblia ensina tão claramente. As pessoas são capazes de se submeter às leis de Deus e merecer a sua aprovação final. De acordo com o Islam, a necessidade espiritual do homem não é de um salvador, mas de orientação.

Isto leva ao fato de que, como no Islam a aceitação por Deus é algo que devemos merecer por nossas obras, não é possível fornecer o senso de segurança que pode ser achado na graça de Deus, conforme ensinado na Bíblia.

Muitos de nós teremos oportunidade de ajudar vizinhos, colegas ou amigos muçulmanos. Ao fazer isto, devemos estar cientes de algumas barreiras que existem entre muçulmanos e cristãos, devido a animosidades passadas e atuais.

A atitude de muitos muçulmanos em relação ao Cristianismo e em relação ao Ocidente é colorida pela história do conflito que teve expressão nas Cruzadas e nos tempos medievais, na dominação e colonialismo europeu, assim como no apoio ocidental ao Sionismo em tempos mais recentes. Devemos permitir que o amor de Deus vença o nosso próprio medo e atitude defensiva, e penetrar essas barreiras.

Nos últimos anos, muitos muçulmanos têm sido profundamente impressionados pela compaixão demonstrada pelos ocidentais (e particularmente pelos Estados Unidos) em relação a países muçulmanos que têm sofrido severas dificuldades. Este tipo de compaixão pode ser demonstrado a nível individual também. Ao fazer isto, podemos então convidar nossos amigos muçulmanos para se unirem a nós em um estudo do Novo Testamento que revele a única fonte de aceitação diante de Deus em Seu amor e graça, expresso através do sacrifício de Seu Filho Jesus Cristo e Seu dom do Espírito Santo.



Fonte: Probe Ministries (http://www.probe.org)

Tradução: Rodrigo Reis de Faria

terça-feira, 2 de julho de 2013

Justino Mártir: Defensor da Igreja

Rick Wade


A Conversão e os Escritos de Justino

Em um artigo anterior, falei sobre as perseguições que os cristãos sofreram na igreja primitiva.(1) Uma das características surpreendentes dos cristãos perseguidos era a coragem que demonstravam a caminho da execução. De fato, somos informados por um convertido do começo do segundo século que esta coragem foi um dos fatores que o fez se abrir para o evangelho. Este convertido era um filósofo chamado Justino, com o qual você poderia estar familiarizado como Justino Mártir. Justino foi um dos primeiros apologistas, ou defensores, da igreja. O historiador da igreja Robert Grant diz que Justino foi “o apologista mais importante do segundo século”.(2) Enquanto consideramos a obra de Justino, veremos algumas semelhanças nas acusações feitas contra os cristãos de seu tempo e contra os de nosso tempo. Talvez você possa aprender alguma coisa com este cristão do segundo século.

A Vida de Justino

Acredita-se que Justino nasceu pouco depois de 100 a.D. O lugar do seu nascimento era Flavia Neapolis, na Síria-Palestina, ou Samaria.(3) A educação de Justino na infância incluiu a retórica, poesia e história. Quando jovem, ele adquiriu especial interesse em filosofia, e estudou principalmente o estoicismo e o platonismo.(4) Justino buscava a Deus, que “é o alvo da filosofia de Platão”, dizia ele.(5)

Justino foi apresentado à fé diretamente por um ancião que o envolveu em uma discussão sobre questões filosóficas e então lhe falou a respeito de Jesus. Ele levou Justino aos profetas hebreus, os quais eram anteriores aos filósofos, dizia ele, e falaram “como testemunhas confiáveis da verdade”.(6) Eles profetizaram a vinda de Cristo, e suas profecias foram cumpridas em Jesus. Justino dizia que, então, “meu espírito imediatamente se incendiou, e uma afeição pelos profetas, e por aqueles que foram amigos de Cristo, tomou conta de mim; enquanto ponderava em suas palavras, descobri que a sua filosofia era a única certa e útil ... é o meu desejo que todos tivessem os mesmos sentimentos que eu, e nunca desprezassem as palavras do Salvador”.(7) Justino procurou cristãos que lhe ensinaram a história e a doutrina cristã, e então “devotou-se totalmente à difusão e vindicação da religião cristã”.(8)

Justino continuou a vestir a capa que o identificava como filósofo, e ensinava a estudantes em Éfeso e mais tarde em Roma. James Kiefer nota que “ele se envolvia em debates e disputas com não-cristãos de todas as variedades, pagãos, judeus e hereges”.(9)

A convicção de Justino sobre a verdade de Cristo era tão completa que ele morreu como mártir em algum momento por volta de 165 a.D. Eusébio, o antigo historiador da igreja, disse que ele foi denunciado pelo cínico Crescente, com o qual se envolvera em debate pouco antes de sua morte.(10) Justino foi decapitado juntamente com seis de seus alunos.
O historiador Philip Schaff resume o caráter e ministério de Justino da seguinte maneira:

Ele havia alcançado considerável cultura clássica e filosófica antes de sua conversão, e então a tornou subserviente à defesa da fé. Ele não era um homem de gênio e acurada erudição, mas de respeitável talento, extensa leitura, e larga memória ... Ele tinha a coragem de um confessor em vida e a de um mártir na morte. É impossível não admirar sua destemida devoção à causa da verdade e à defesa de seus irmãos perseguidos.(11)

Os Escritos de Justino

O entendimento de Justino sobre o Cristianismo era filtrado pela filosofia que ele havia aprendido. O platonismo do tempo de Justino tinha uma forte inclinação teísta, e seu elevado tom moral parecia estar de acordo com o Cristianismo. Justino (e outros) conectavam o Logos da filosofia com o Logos de João, capítulo 1. O historiador Philip Schaff descreve o pensamento da seguinte maneira:

O Logos é a Razão pré-existente, absoluta, pessoal, e Cristo é a sua personificação, o Logos encarnado. Tudo o que é racional é cristão, e tudo o que é cristão é racional. O Logos dotou todos os homens de razão e liberdade, as quais não se perderam com a queda. Ele espalhou sementes de verdade antes de sua encarnação, não apenas entre os judeus, mas também entre os gregos e bárbaros, especialmente entre os filósofos e poetas, que são os profetas dos pagãos. Aqueles que viveram de modo racional e virtuoso em obediência a esta luz preparatória foram cristãos de fato, embora não de nome; enquanto aqueles que viveram de modo irracional estavam sem Cristo e foram inimigos de Cristo. Sócrates foi cristão assim como Abraão, embora não soubesse disto.(13)

Além desta fonte de verdade, Justino (e outros) acreditava que os ensinos de Moisés foram transmitidos através dos egípcios aos gregos.(14) Deus não era simplesmente conhecido através do raciocínio abstrato; Ele mesmo Se revelou pessoalmente quando falou aos profetas que, por sua vez, O revelaram a nós.(15)

Se a idéia de Justino sobre Cristo e o Logos parece estranha, devemos ter em mente que nós, também, tipicamente entendemos o Cristianismo através das categorias dos filósofos de nosso tempo. Não somos leitores completamente neutros da Escritura.

Por exemplo, em tempos modernos a ciência tem sido considerada a fonte suprema da verdade. Isto alimentou o desenvolvimento da apologética evidencial. Este é um método que enfatiza os fatos históricos e naturais como evidências em favor da fé. Mas os estudiosos passaram a entender que fatos não são as “verdades” completamente livres de valores que o modernismo ensina. Outros cristãos que objetam ao que consideram uma abordagem excessivamente racionalista têm derivado [argumentos] de filósofos existencialistas que estão mais preocupados com a condição humana. Em outras áreas, também, revelamos as idéias do modernismo em nossa vida cristã. Quantos livros de “como fazer” estão nas prateleiras de livrarias cristãs? Há uma tendência em se tomar uma atitude de “faça isto e tal e tal acontecerá” sobre o nosso desenvolvimento pessoal e espiritual. A técnica apropriada é uma noção muito modernista.

Assim, não devemos ser muito duros com Justino Mártir. Ele foi um homem de seu tempo que fez o melhor para explicar e defender as crenças cristãs usando a estrutura de pensamento com que estava familiarizado. Fazendo isto, ele foi uma força importante no desenvolvimento da teologia e apologética cristã da igreja primitiva.**

A Apologética de Justino

Cristãos Tratados Injustamente

Em suas duas Apologias, o objetivo primário de Justino era mais defender os cristãos do que o Cristianismo em si.(16) Os cristãos eram tratados injustamente; a ambição de Justino era obter tratamento justo para eles. A perseguição havia avançado a ponto de os cristãos serem merecedores de juízo simplesmente por trazerem o nome de cristãos. Seus estranhos hábitos de culto, sua recusa em participar dos cultos cívicos e do culto ao imperador, e suas crenças estranhas eram suficientes para criar um preconceito geral contra eles. Assim foi que, sob alguns imperadores e governadores locais, os cristãos podiam ser levados a julgamento simplesmente por trazerem o nome.

Cristãos e Ateísmo

Parte do problema era uma deturpação das crenças cristãs. Como os cristãos não cultuavam os deuses gregos e romanos, eles eram chamados de ateístas. Justino questionava como eles poderiam ser ateus se adoravam “ao Deus Mais Verdadeiro”. Os cristãos adoram ao Pai, ao Filho e ao Espírito Profético, dizia ele, e “prestam homenagem a eles na razão e na verdade”. Justino também assinalava a inconsistência dos governantes romanos. Alguns dos seus próprios filósofos ensinavam que não havia nenhum deus, mas eles não eram perseguidos simplesmente por trazerem o nome de filósofos. Pior ainda, alguns poetas denunciavam Júpiter, mas eram honrados por líderes do governo.(17)

Cristãos e Cidadania

Outra acusação contra os cristãos era de que eles eram inimigos do Estado. Sua falta de participação nos rituais religiosos pagãos, os quais faziam parte da vida pública cotidiana durante aqueles tempos, e a sua conversa sobre pertencer a outro reino levavam a acusações de que eles não eram bons cidadãos. Justino respondia que eles não estavam esperando um reino terreno, um que ameaçasse Roma. Se estivessem, eles não iriam para a morte tão tranqüilamente, mas fugiriam e se esconderiam até que o reino viesse sobre a terra. Além disso, ele insistia que “nós, mais do que todos os demais homens, na verdade somos os vossos auxiliares e aliados no fomento da paz”, porque os cristãos sabiam que um dia se encontrariam com Deus e prestariam contas de suas vidas.(18) “Somente a Deus adoramos”, dizia ele, “mas em outras coisas alegremente vos obedecemos, reconhecendo-vos como reis e governantes dos homens”.(19) Como um exemplo específico de que eram bons cidadãos, Justino citou que os cristãos são fiéis em pagar as taxas, porque Jesus disse que eles deveriam fazê-lo (Mateus 22:20-21). O argumento geral de Justino era de que, vivendo vidas virtuosas – algo que era altamente considerado na filosofia grega – os cristãos eram, por convicção, bons cidadãos.

A Situação Hoje

Será que este tipo de situação lhe é familiar? Hoje, trazer o nome de fundamentalista ou ser associado a um cristão famoso como Jerry Falwell ou Pat Robertson é suficiente para ser condenado como malvado, fanático, tacanho e certamente prejudicial para a sociedade.(20) Se nós cristãos apenas mantivéssemos nossa religião privada enquanto estamos em público, concordando com os sentimentos da sociedade secular, seríamos aceitáveis. A isto devemos responder como Justino, não ficando vermelhos de raiva e descendo ao nível de xingamentos, mas apresentando aquilo em que realmente cremos e mostrando que nós – e o próprio Cristianismo – na verdade não são prejudiciais para uma sociedade bem ordenada, mas, pelo contrário, são bons para ela. Poderíamos ir mais além e mostrar como a moralidade de nosso tempo é prejudicial para a sociedade. Isto poderia ser persuasivo para alguns, mas certamente não para todos – talvez nem para a maioria. Mas, esclarecendo aquilo em que cremos e por que cremos, estaremos fortalecendo a igreja, e isto é importante se, conforme penso, os fiéis são mais enfraquecidos pelo xingamento e ostracismo do que pelos ataques à doutrina.

Cristianismo como Moral

Além de serem chamados de inimigos do Estado e de ateístas, os cristãos da igreja primitiva eram acusados de se envolverem em grosseira imoralidade. Por exemplo, diziam que eles se envolviam em orgias e em canibalismo nos seus serviços de culto. Em suas apologias, Justino defendeu os cristãos como sendo, pelo contrário, pessoas de elevado caráter moral.

Por exemplo, dizia Justino, os cristãos demonstravam sua honestidade não mentindo quando trazidos a julgamento. Como eram pessoas de veracidade, eles confessavam sua fé até a morte. Eles amavam a verdade mais do que a própria vida. Os cristãos eram pacientes em tempos de perseguição, e mostravam amor até para com seus inimigos.

Esta atitude de viver de acordo com a verdade era apenas um exemplo da mudança realizada nas vidas das pessoas após a sua conversão. Certo escritor nota que esta mudança chegou a ser conhecida como “o canto triunfal dos apologistas”.(21) Justino dizia:

Nós, que outrora nos divertíamos em impurezas, agora nos apegamos à pureza; nós, que nos devotávamos às artes da magia, agora nos consagramos ao bom e incriado Deus; nós, que amávamos mais do que tudo os meios de adquirir riquezas e posses, agora entregamos a um fundo comunitário aquilo que possuímos, e o repartimos com todo o necessitado; nós, que odiávamos e matávamos uns aos outros e não tínhamos compaixão dos que eram de outra tribo por causa de seus costumes [diferentes], agora, após a vinda de Cristo, vivemos junto com eles, e oramos pelos nossos inimigos, e tentamos convencer aqueles que nos odeiam injustamente ...(22)

Justino também enfatizava o comportamento casto dos cristãos, em resposta às acusações de comportamento imoral durante o culto. Para mostrar o quanto isso estava distante da verdade, ele contou a história de um jovem que pediu a um cirurgião que o fizesse eunuco para provar que os cristãos não praticam a promiscuidade. O pedido foi negado, por isso o jovem escolheu permanecer solteiro e responsável perante seus irmãos.(23)

Uma das táticas apologéticas de Justino era contrastar aquilo de que os cristãos eram falsamente acusados de fazer, e pelo que eram punidos, com o que os romanos faziam com impunidade. Por exemplo, os cristãos eram acusados de matar crianças em serviços de culto e então consumi-las. Justino contradizia que eram os adoradores de Saturno que se envolviam em homicídio e ingestão de sangue, e outros pagãos que aspergiam o sangue de homens e animais sobre seus ídolos. Os cristãos eram acusados de imoralidade sexual, mas eram seus críticos, dizia Justino, que imitavam “Júpiter e os outros deuses em sodomia e relações pecaminosas com mulheres”.(24)

Hoje em dia, dizem que os cristãos que se opõem ao aborto odeiam as mulheres. Aqueles que acreditam que a homossexualidade está errada são chamados de mestres do ódio. Quando tentamos apresentar o nosso argumento assim como fez Justino, é difícil obter alguma atenção. Isto não quer dizer que não devamos tentar esclarecer nossas crenças ou mesmo mostrar como os críticos podem ser tão imorais quanto eles acusam os cristãos de serem.(25) O que precisamos lembrar é que um esclarecimento dos ensinamentos cristãos não é suficiente. Não foi no tempo de Justino. Considere os meios que ele listou pelos quais as pessoas eram trazidas a Cristo. Ele dizia que muitos eram “convertidos de uma vida de violência e tirania, porque eram conquistados ou pela constância da vida de seus vizinhos, ou pela estranha paciência que notavam em seus companheiros prejudicados, ou experimentando sua honestidade em assuntos de negócios”.(26) O elevado caráter moral dos cristãos, ainda que freqüentemente caluniado, é um poderoso testemunho e apologia da fé.

O Argumento de Justino em favor de Cristo

Como parte de sua defesa em favor dos cristãos diante do Imperador e do Senado romano, Justino também argumentava que o Cristianismo era verdadeiro. Isto era importante porque a razão e a busca da verdade eram altamente valorizadas pela intelligentsia romana. Como uma das acusações contra os cristãos era de que eles tinham crenças supersticiosas, devia ser demonstrado que suas crenças eram racionais. Consideremos o argumento central de Justino em favor da veracidade do Cristianismo, a saber, de que a vinda de Cristo – o Logos de Deus – fora predita através do Espírito Profético, milhares de anos antes.

O Logos Eterno

Anteriormente falei sobre como Cristo era identificado com o Logos – o locus da razão no universo – de que os filósofos falavam. Falar sobre Ele nestes termos ajudaria a obter a atenção das classes cultas de seu tempo. Como notou certo historiador, “Onde [o Logos] era mencionado, o interesse de todos era imediatamente garantido”.(27) Era importante demonstrar a racionalidade da fé, e o Logos era o locus da razão nas principais escolas da filosofia grega. Para citar novamente Philip Schaff, “o Cristianismo é a mais elevada razão” para Justino. “O Logos é a Razão pré-existente, absoluta, pessoal, e Cristo é a sua personificação, o Logos encarnado. Tudo o que é racional é cristão, e tudo o que é cristão é racional”.(28) Além de assegurar a racionalidade do Cristianismo, identificar Jesus com o Logos indicava a Sua antiguidade, o que era importante para a mente grega ao estabelecer a veracidade de uma crença. Devo notar aqui que esta ênfase na razão não deve nos levar a pensar que a fé não significasse nada para Justino. Repetidamente ele se refere à fé em suas apologias. Ele fala de termos sido curados “pela fé através do sangue e da morte de Cristo”.(29) Ele até se refere a Abraão que “foi justificado e abençoado por Deus por causa da sua fé nEle”.(30) Porém, mesmo aqui a questão do conhecimento é central, pois Justino colocava mais peso em crer nos ensinos de Cristo do que em crer no próprio Cristo.

Profecias Cumpridas

Mas por que esta afirmação sobre Jesus deve ser crida? A razão era porque Ele era o cumprimento das profecias feitas milhares de anos antes – o que provava que Ele não era apenas um homem que podia fazer magia, mas o prometido Filho de Deus. “Nós somos testemunhas reais dos eventos que aconteceram e estão acontecendo do mesmo modo em que foram preditos”, dizia ele.(31) Justino resumiu as profecias do Antigo Testamento a respeito de Cristo da seguinte maneira:

Nos livros dos Profetas, de fato, encontramos Jesus, o nosso Cristo, predito como vindo a nós nascendo de uma virgem, alcançando a maturidade, curando toda doença e dor, ressuscitando os mortos, sendo odiado, não reconhecido, e crucificado, morrendo, ressuscitando dos mortos, ascendendo ao Céu, e sendo chamado e realmente sendo o Filho de Deus. E que Ele enviaria certas pessoas a toda nação para que fizessem conhecer estas coisas, e que antes os gentios [do que os judeus] creriam nEle. Ele foi predito, na verdade, antes que realmente aparecesse, primeiro cinco mil anos antes, depois quatro mil, depois três mil, depois dois mil, depois mil e finalmente oitocentos. Pois, nas sucessivas gerações, novos profetas se levantaram vez após outra.(32)

Não somente o cumprimento da profecia era notável em si mesmo, mas também era significativo que tais profecias tivessem sido feitas muito tempo antes dos filósofos gregos, pois, diferente de hoje, a antiguidade era importante para a mente grega ao estabelecer a veracidade de uma crença.

Conclusão

Apesar de todas as fraquezas em sua teologia e apologética, Justino Mártir fornece um exemplo daqueles que levaram a sua fé muito a sério na igreja primitiva, e que buscaram ser porta-vozes do Senhor e defensores de Seu povo. Schaff diz que “[os escritos de Justino] atestam sua honestidade e seriedade, seu amor entusiástico pelo Cristianismo, e seu destemor em sua defesa contra todos os assaltos de fora e perversões de dentro”.(33) Embora possa nos parecer que, para Justino, o Cristianismo na verdade era apenas filosofia, o historiador Jaroslav Pelikan nota que a fé de Justino era alimentada mais pelo que a igreja confessava a respeito de Cristo do que pela sua própria especulação filosófica. “Ele estava, apesar disso, pronto a entregar sua vida por Cristo; e seu martírio fala mais alto, inclusive doutrinariamente, do que a sua apologética”.(34)

Referências

1. Rick Wade, Perseguição na Igreja Primitiva, Probe Ministries, Sept. 1999.
2. Robert M. Grant, Greek Apologists of the Second Century (Philadelphia: Westminster Press, 1988), 50.
3. Justino Mártir, Primeira Apologia, em Writings of Saint Justin Martyr, trans. Thomas B. Falls, The Fathers of the Church (New York: Christian Heritage, Inc.: 1948), 33.
4. James E. Kiefer, "Justin Martyr, Philosopher, Apologist, and Martyr,"justus.anglican.org/resources/bio/175.html.
5. Justino Mártir, Diálogo com Trifão, em Writings of Saint Justin Martyr, trans. Thomas B. Falls, The Fathers of the Church (New York: Christian Heritage, Inc.: 1948), 151.
6. Ibid., 159.
7. Ibid., 160.
8. Philip Schaff, Ante-Nicene Christianity: A.D. 100-325, vol. II in History of the Christian Church (Grand Rapids: Eerdmans, 1910), 714.
9. Kiefer, "Justin Martyr."
10. The Catholic Encyclopedia, s.v. "St. Justin Martyr."www.newadvent.org/cathen/08580c.htm. Vede também a própria predição de Justino acerca de sua traição na Segunda Apologia, em Writings of Saint Justin Martyr, trans. Thomas B. Falls, The Fathers of the Church (New York: Christian Heritage, Inc.: 1948), 122-23.
11. Schaff, 715.
12. Justino, Primeira Apologia, 33.
13. Schaff, 723.
14. The New Encyclopedia Britannica, 15th ed., Macropaedia, s.v. "Platonism and Neoplatonism," by A. Hilary Armstrong. Vede também Justino, Primeira Apologia, 81.
15. Catholic Encyclopedia.
16. Robert Grant acredita que foi o martírio de Policarpo [creio que o autor se refere a Inácio – nota do tradutor] em Roma que impeliu Justino a escrever ao imperador. Grant, Greek Apologists of the Second Century, 53.
17. Justino, Primeira Apologia, 37-39.
18. Ibid., 43-44.
19. Ibid., 52.
20. O leitor pode desejar ver meu artigo Not a Threat: The Contributions of Christianity to Western Society.*
21. Thomas B. Falls, em Justino, Primeira Apologia, 47, referência 2.
22. Justino, Primeira Apologia, 47.
23. Ibid., 65.
24. Ibid., 133.
25. Este tipo de discussão em geral pode ser difícil devido ao relativismo moral de nosso tempo. Um bom livro para ler que mostra que os americanos não são tão relativistas quanto parecem pensar é William D. Watkins, The New Absolutes (Minneapolis: Bethany House, 1996). Para uma apresentação resumida das idéias de Watkins' ideas, vede o meu artigo The New Absolutes.*
26. Justino, Primeira Apologia, 50.
27. Reinhold Seeberg, citado em J.L. Neve, A History of Christian Thought, vol. 1 (Philadelphia: The Muhlenberg Press, 1946), 46.
28. Schaff, 723.
29. Justin, Diálogo, 166.
30. Ibid., 183.
31. Justino, Primeira Apologia, 66.
32. Ibid., 68.
33. Schaff, 719.
34. Pelikan, 143.

© 2000, Probe Ministries.

* Sem tradução.
** O texto da Primeira Apologia pode ser lido, na íntegra, aqui.

Fonte: Probe Ministries (http://www.probe.org)

Tradução: Rodrigo Reis de Faria

terça-feira, 14 de maio de 2013

Ressurreição: Fato ou Ficção?


Patrick Zuckeran

Introdução

O evento mais importante da história é a ressurreição de Jesus Cristo. É a evidência mais forte de que Jesus é o Filho de Deus. Este evento dá a homens e mulheres a esperança certa de vida eterna – uma esperança que não apenas nos dá alegria quando olhamos para o futuro, mas também nos fornece poderosas razões para vivermos hoje.

Ao longo dos séculos, porém, têm surgido estudiosos que tentam negar o relato da ressurreição. Nossas escolas estão cheias de livros de história que oferecem explicações alternativas para a ressurreição ou, em alguns casos, nem sequer mencionam este evento singular.

Neste ensaio, vamos fazer uma análise das evidências em favor da ressurreição e verificar se este evento é fato histórico ou ficção. Mas, primeiro, devemos estabelecer o fato de que Jesus Cristo foi um personagem histórico, e não uma lenda. Existem vários documentos históricos extremamente fiéis que testificam a respeito de Jesus. Primeiro, consideremos os próprios quatro Evangelhos. Os autores Mateus, Marcos, Lucas e João registraram fatos muito específicos dos eventos em torno da vida de Jesus, e a arqueologia tem confirmado a fidelidade do Novo Testamento. Centenas de fatos, como nomes de oficiais, localidades geográficas, moedas da época e datas de eventos, têm sido confirmadas. Sir William Ramsay, um dos maiores geógrafos do século 19, tornou-se firmemente convencido da fidelidade do Novo Testamento em conseqüência das evidências esmagadoras que descobriu durante suas pesquisas. Por esta causa, ele inverteu completamente o seu antagonismo contra o Cristianismo.

A evidência textual mostra decisivamente que os Evangelhos foram escritos e circularam durante o tempo de vida daqueles que testemunharam os eventos. Como há tantos nomes e lugares específicos mencionados, as testemunhas oculares poderiam ter facilmente desacreditado os escritos. O Novo Testamento nunca teria sobrevivido se os fatos tivessem sido inxatos. Estes fatos indicam que os Evangelhos são historicamente confiáveis e demonstram que Jesus é um personagem histórico. Para maiores informações sobre a fidelidade da Bíblia, confira o ensaio intitulado Authority of the Bible.*

Outro documento que apóia a historicidade de Jesus é a obra de Josefo, um historiador judeu potencialmente hostil. Ele registrou as Antiguidades – uma história dos judeus para os romanos – durante o tempo da vida de Jesus. Ele escreveu: “Ora, por esse tempo surgiu Jesus, um homem sábio – se é que podemos chamá-lo de homem”.(1) Josefo continua relatando outros detalhes específicos sobre a vida e morte de Jesus, os quais correspondem com o Novo Testamento. Historiadores romanos como Suetônio, Tácito e Plínio o Jovem também se referem a Jesus como um indivíduo historicamente real.

Os céticos geralmente desafiam os cristãos a provarem cientificamente a ressurreição. Devemos entender que o método científico baseia-se na demonstração de que algo é um fato por meio de observações repetidas do objeto ou evento. Portanto, o método é limitado a eventos que podem ser repetidos, e a objetos que podem ser observados. Eventos históricos não podem ser repetidos. Por exemplo, podemos observar repetidamente a criação do nosso sistema solar? A resposta óbvia é não, mas isto não significa que a criação do sistema solar não tenha acontecido.

Ao provar um evento histórico como a ressurreição, devemos considerar a evidência histórica. Até agora em nossa discussão, demonstramos que a crença no Jesus histórico do Novo Testamento certamente é razoável, e que o método científico não pode ser aplicado para provar um evento histórico. No restante deste ensaio, examinaremos os fatos históricos concernentes à ressurreição e veremos o que as evidências revelam.

Examinando as Evidências

Três fatos devem ser considerados quando investigamos a ressurreição: o túmulo vazio, a transformação dos apóstolos e a pregação da ressurreição originando-se em Jerusalém.

Examinemos primeiramente o caso do túmulo vazio. Jesus era um personagem bem conhecido em Israel. Seu lugar de sepultamento era conhecido por muitas pessoas. De fato, Mateus registra o local exato do túmulo de Jesus. Ele declara: “E José [de Arimatéia], tomando o corpo, envolveu-o num fino e limpo lençol, e o pôs no seu sepulcro novo” (Mateus 27:59-60). Marcos afirma que José era “um membro proeminente do Conselho” (Marcos 15:43).

Teria sido destrutivo para os escritores inventar um homem de tamanha proeminência, citá-lo especificamente, e designar o local do túmulo, visto que as testemunhas oculares teriam facilmente desacreditado as afirmações falaciosas dos autores.

Fontes judaicas e romanas testificam de um túmulo vazio. Mateus 28:12-13 declara especificamente que os principais dos sacerdotes inventaram a história de que os discípulos roubaram o corpo. Não haveria necessidade desta invenção se o túmulo não estivesse vazio. Os opositores da ressurreição devem explicar isto. Se o túmulo não estivesse vazio, a pregação dos apóstolos não teria durado um dia. Todas o que as autoridades precisariam fazer para por um fim ao Cristianismo seria mostrar o corpo de Jesus.

Juntamente com o túmulo vazio há o fato de que o corpo de Jesus nunca foi encontrado. Nem um registro histórico do primeiro ou segundo século foi escrito atacando a factualidade do túmulo vazio ou afirmando a descoberta do corpo. Tom Anderson, ex-presidente da Associação de Advogados da Califórnia, declara:

Assumamos que os relatos escritos das Suas aparições a centenas de pessoas sejam falsos. Quero propor uma questão. Com evento tão bem publicado, você não acha que seria razoável que um historiador, uma testemunha ocular, um antagonista, registrasse, para o tempo futuro, que ele havia visto o corpo de Cristo? ... O silêncio da história é gritante quando se trata do testemunho contra a ressurreição.(2)

Em segundo lugar, temos as vidas transformadas dos apóstolos. Está registrado nos Evangelhos que, enquanto Jesus estava sendo julgado, os apóstolos O abandonaram por medo. Contudo, 10 dos 11 apóstolos morreram como mártires, crendo que Cristo ressuscitou dos mortos. O que explica a sua transformação em homens dispostos a morrer pela sua mensagem? Deve ser um evento muito convincente para conseguir explicar isto.

Em terceiro lugar, os apóstolos começaram a pregar a ressurreição em Jerusalém. Isto é significativo, uma vez que esta é a mesma cidade em que Jesus foi crucificado. Esta era a cidade mais hostil em que pregar. Além disso, toda a evidência estava ali para que todos investigassem. Lendas lançam raízes em terras estrangeiras, ou séculos após o evento. Desacreditar tais lendas é difícil, uma vez que os fatos são difíceis de confirmar. Contudo, neste caso, a pregação ocorre na cidade do evento, imediatamente após o seu ocorrido. Cada fato possível poderia ter sido completamente investigado.

Qualquer um que estude a ressurreição deve explicar de algum modo estes três fatos.

Cinco Explicações Comuns

Ao longo do tempo, cinco explicações têm sido usadas para argumentar contra a ressurreição. Examinaremos estas explicações para verificar se são válidas.

A Teoria do Túmulo Errado

Os proponentes deste primeiro argumento declaram que, de acordo com os relatos do Evangelho, as mulheres visitaram o sepulcro de manhã cedo, enquanto ainda estava escuro. Devido à sua condição emocional e à escuridão, elas visitaram o túmulo errado. Arrebatadas de emoção por ver que estava vazio, elas se precipitaram em dizer aos discípulos que Jesus havia ressuscitado. Os discípulos, por sua vez, correram para Jerusalém para proclamar a ressurreição.

Existem vários erros graves nesta explicação. Primeiro, é extremamente duvidoso que os apóstolos não tivessem corrigido o erro das mulheres. O Evangelho de João fornece um relato detalhado sobre eles fazendo exatamente isto. Segundo, o local do túmulo era conhecido não apenas pelos seguidores de Cristo, mas também pelos seus opositores. Os Evangelhos deixam claro que o corpo foi sepultado no túmulo de José de Arimatéia, um membro do conselho judaico. Se o corpo ainda estivesse no túmulo enquanto os apóstolos começaram a pregar, as autoridades simplesmente teriam de ir ao túmulo certo, mostrar o corpo, e fazê-lo marchar pelas ruas. Isto teria acabado com a fé cristã de uma vez por todas. Lembre-se de que a pregação da ressurreição começou em Jerusalém, a quinze minutos de distância do lugar da crucificação e do túmulo. Estes fatores tornam esta teoria extremamente fraca.

A Teoria da Alucinação

Esta segunda teoria sustenta que a ressurreição de Cristo aconteceu apenas nas mentes dos discípulos. Dr. William McNeil articula esta posição em seu livro, A World History. Ele escreve:

As autoridades romanas em Jerusalém prenderam e crucificaram Jesus. ... Mas, logo em seguida, os desalentados apóstolos se reuniram em um cenáculo e subitamente sentiram novamente a presença reconfortante de seu mestre. Isto pareceu ser evidência absolutamente convincente de que a morte de Jesus sobre a cruz não havia sido o fim, mas o começo. ... Os apóstolos se emocionaram de excitação e tentaram explicar a todos que dessem ouvidos tudo o que havia acontecido.(3)

Esta posição é irreal por diversos motivos. Para que alucinações deste tipo aconteçam, os psiquiatras concordam que diversas condições devem existir. Contudo, esta situação não era conducente a alucinações. Aqui vão diversos motivos. Alucinações geralmente ocorrem com pessoas que são imaginativas e de natureza nervosa. Contudo, as aparições de Jesus ocorreram a uma variedade de pessoas. Alucinações são subjetivas e individuais. Duas pessoas não têm a mesma experiência. Neste caso, mais de quinhentas pessoas (1 Coríntios 15) têm o mesmo relato. Alucinações ocorrem apenas em momentos e lugares particulares e estão associadas aos eventos. As aparições da ressurreição ocorrem em muitos ambientes diferentes, e em ocasiões diferentes. Finalmente, alucinações desta natureza ocorrem àqueles que querem intensamente crer. Contudo, vários deles, tais como Tomé e Tiago, o meio-irmão de Jesus, eram hostis às novas da ressurreição.

Se alguém continua argumentando em favor desta posição, mesmo assim deverá explicar o túmulo vazio. Se os apóstolos apenas imaginassem a ressurreição em sua pregação, tudo o que as autoridades precisariam fazer era mostrar o corpo, e isto teria acabado com o sonho dos apóstolos. Estes fatos tornam estas duas teorias extremamente improváveis.

A Teoria do Desmaio

Uma terceira teoria esposa que Jesus nunca morreu na cruz, mas apenas desmaiou e foi equivocamente considerado morto. Depois de três dias Ele reviveu, saiu do túmulo, e apareceu aos Seus discípulos, os quais acreditaram que Ele havia ressuscitado dos mortos. Esta teoria foi desenvolvida no começo do século dezenove, mas hoje tem sido completamente abandonada por diversos motivos.

Primeiro, é uma impossibilidade física que Jesus pudesse ter sobrevivido às torturas da crucificação. Segundo, os soldados que crucificaram Jesus eram especialistas em executar esse tipo de pena de morte. Além disso, eles tomaram diversas precauções para assegurar que Ele estivesse realmente morto. Eles enfiaram uma lança em Seu lado. Quando sangue e água saem separadamente, isto indica que as células do sangue começaram a se separar do plasma – o que acontece apenas quando o sangue pára de circular. Ao decidir quebrar as pernas dos criminosos (a fim de apressar o processo de morte), eles examinaram cuidadosamente o corpo de Jesus e descobriram que Ele já estava morto.

Após ser descido da cruz, Jesus foi coberto com mais de trinta quilos de especiarias e embalsamado. É irracional crer que, após três dias, sem comida nem bebida, Jesus revivesse. Ainda mais difícil de acreditar é que Jesus pudesse mover uma pedra de duas toneladas, subjugar os guardas, e depois andar várias milhas até Emaús. Ainda que Jesus tivesse feito isto, Sua aparição aos discípulos como meio morto e em desesperada necessidade de atenção médica não os teria incitado a adorarem-nO como Deus.

No século 19, David F. Strauss, um opositor do Cristianismo, pôs fim a qualquer esperança nesta teoria. Embora não cresse na ressurreição, ele concluiu que esta era uma teoria muito estranha. Ele disse:

É impossível que um ser que havia escapado meio morto do sepulcro, arrastando-se fraco e doente, precisando de tratamento médico, necessitando de curativos, de recuperação e descanso, e que, finalmente, ainda se submetesse aos seus sofrimentos, pudesse ter dado aos discípulos a impressão de que era um Vencedor sobre a morte e a sepultura, o Príncipe da vida – uma impressão que estaria na base de seu futuro ministério.(4)

A Teoria do Corpo Roubado

Este quarto argumento mantém que autoridades judaicas e romanas roubaram o corpo ou o moveram para salvaguardá-lo. É inconcebível pensar nisto como uma possibilidade. Se eles tivessem o corpo, por que precisariam acusar os discípulos de roubá-lo? (Mateus 28:11-15). Em Atos 4, as autoridades judaicas ficaram enfurecidas e fizeram tudo o que podiam para impedir a difusão do Cristianismo. Por que os discípulos enganariam o seu próprio povo para que acreditassem em um falso Messias, quando sabiam que este engano significaria as mortes de centenas de seus amigos crentes? Se realmente soubessem onde estava o corpo, eles poderiam tê-lo exposto, e acabado com a fé que lhes causava tantos problemas e embaraços. Durante toda a pregação dos apóstolos, as autoridades nunca tentaram refutar a ressurreição mostrando um corpo. Esta teoria tem pouco mérito.

A Teoria de que os Soldados Adormeceram

Até agora temos estudado as evidências da ressurreição. Examinamos quatro teorias usadas na tentativa de invalidar este milagre. A análise cuidadosa revelou que as teorias foram inadequadas para refutar a ressurreição. A quinta e mais popular teoria existe desde o dia da ressurreição e ainda é crida por muitos opositores do Cristianismo. Mateus 28:12-13 articula esta posição.

E, congregados os príncipes dos sacerdotes com os anciãos, e tomando conselho entre si, deram muito dinheiro aos soldados, dizendo: “Dizei: Vieram de noite os seus discípulos e, dormindo nós, o furtaram”.

Muitos têm se questionado por que Mateus registra isso e, em seguida, não o refuta. Talvez seja porque esta explicação fosse tão absurda que ele não visse a necessidade de fazê-lo.
Esta explicação continua sendo uma impossibilidade por diversos motivos. Primeiro, se os soldados estavam dormindo, como sabiam que foram os discípulos que roubaram o corpo? Segundo, parece fisicamente impossível que os discípulos passassem pelos soldados e em seguida movessem uma pedra de duas toneladas em completo silêncio. Certamente, os guardas teriam ouvido alguma coisa.

Terceiro, o túmulo estava protegido por um selo romano. Qualquer que movesse a pedra romperia o selo – um crime punido com a morte. O desânimo e a covardia dos discípulos tornam difícil de acreditar que eles repentinamente se fizessem corajosos a ponto de enfrentar um destacamento de soldados, roubar o corpo, e em seguida mentir sobre a ressurreição, quando, no fim das contas, enfrentariam uma vida de sofrimento e morte pela sua mensagem inventada.

Quarto, os guardas romanos não dormiriam, tendo um dever tão importante. Havia penalidades por se fazer isto. Os discípulos precisariam tê-los subjugado - uma cena bastante improvável.

Finalmente, no Evangelho de João as roupas mortuárias foram encontradas “estavam no chão, e o lenço, que tinha estado sobre a cabeça de Jesus. O lenço não estava com os lençóis, mas enrolado num lugar à parte” (20:6, 7). Não havia tempo suficiente para os discípulos passarem pelos guardas, rolarem a pedra, desenfaixarem o corpo, enfaixarem-no em suas faixas, e dobrarem ordenadamente o lenço à parte dos lençóis de linho. Em um roubo, os homens teriam arremessado as vestes em desordem e fugido com medo de serem presos.

Conclusão: Implicações Monumentais

Estas cinco teorias explicam inadequadamente o túmulo vazio, a transformação dos apóstolos e o nascimento do Cristianismo na cidade da crucificação. A conclusão que devemos considerar seriamente é de que Jesus ressuscitou da sepultura. As implicações disto são monumentais.

Primeiro, se Jesus ressuscitou dos mortos, então o que Ele disse sobre Si mesmo é verdade. Ele afirmou: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (João 11:25). Ele também disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14:6). A vida eterna é encontrada somente por meio de Jesus Cristo. Qualquer crença religiosa que contradiga isto deve ser falsa. Todos os líderes religiosos foram enterrados em um sepulcro. Seus túmulos tornaram-se lugares de adoração. O local do túmulo de Jesus é desconhecido, porque está vazio – seu corpo não está lá. Não havia necessidade de transformar em santuário um túmulo vazio.

Segundo, Paulo escreve em 1 Coríntios 15:54, “a morte foi tragada na vitória”. A morte física não é o fim – a vida eterna com o nosso Senhor aguarda a todos os que nEle confiam, porque Jesus venceu a morte.

Referências

1. Josephus, Antiquities xviii. 33. (Early second Century).
2. Josh McDowell, The Resurrection Factor (San Bernadino, Calif.: Here's Life Publishers, 1981), p. 66.
3. William McNeil, A World History (New York: Oxford University Press, 1979), p. 163.
4. David Strauss, The Life of Jesus for the People , vol. 1, 2nd edition (London: Williams and Norgate, 1879), p. 412.

Para Leituras Adicionais

Craig, William Lane. Apologetics: An Introduction. Chicago: Moody Press, 1984.
Geisler, Norman. When Skeptics Ask. Wheaton, Ill.: Victor Press, 1989.
Greenleaf, Simon. The Testimony of the Evangelists; The Gospels Examined by the Rules of Evidence. Grand Rapids: Kregal Publications, 1995.
Little, Paul. Know Why You Believe. Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press, 1988.
McDowell, Josh. Evidence That Demands a Verdict. San Bernadino, Calif.: Here's Life Publishers, 1979.
The Resurrection Factor. San Bernardino, Calif.: Here's Life Publishers, 1981.
McNeill, William. A World History, Third Edition. New York: Oxford University Press, 1979.
Montgomery, John, ed. Evidence for Faith. Dallas: Probe Books, 1991.
Morison, Frank. Who Moved the Stone? Grand Rapids: Zondervan Publishing, 1958.
Strauss, David. The Life of Jesus for the People. Volume 1, Second Edition. London: Williams and Norgate, 1879.

©1997 Probe Ministries.

* Sem tradução.

Fonte: Probe Ministries (www.probe.org)
Tradução: Rodrigo Reis de Faria