domingo, 19 de agosto de 2012

O Mundo do Apóstolo Paulo

Rick Wade

O propósito deste ensaio é lançar um olhar rápido no mundo greco-romano em que o apóstolo Paulo viveu, para que possamos compreender melhor o seu ministério. Entender o contexto histórico nos ajuda a obter tal perspectiva. Discutiremos a religião, filosofia, unidade familiar e moral social da cultura helenística, com uma análise conclusiva sobre o conflito que os cristãos enfrentavam.

Religião

Comecemos com a religião do primeiro século. Dois episódios no livro de Atos fornecem uma compreensão das crenças e práticas religiosas daquele tempo.

Em Atos 19, lemos a respeito do transtorno em que os companheiros de Paulo se envolveram durante o seu ministério em Éfeso. Artífices que fabricavam miniaturas do santuário de Ártemis, a divindade local, se opuseram ao ensino de Paulo de que “os deuses feitos por homens não são deuses” (Atos 19:26). No mundo de Paulo, a religião era parte integral da vida de todos. Os cultos cívicos patrocinados pelo Estado eram uma expressão religiosa em que todos participavam. O historiador Everett Ferguson observa que “as crenças e práticas religiosas mais profundamente arraigadas tanto na Grécia como em Roma ... estavam associadas ao culto cívico tradicional”.(1) O Estado tanto custeava como lucrava com esses cultos.

Cada cidade possuía a sua divindade benfeitora. A cidade de Éfeso honrava Ártemis, a deusa da natureza e da concepção. A estátua de Ártemis estava em um magnífico templo, quatro vezes maior que o Partenon de Atenas. Divindades como Ártemis eram honradas com festivais, sacrifícios, procissões, disputas atléticas e a execução de rituais de mistério. As orações incluíam invocação, louvor e petição, com o objetivo de receber o favor da deusa. Sacrifícios eram oferecidos em louvor, ação de graças ou súplica.

O tumulto em Éfeso que resultou do ensino de Paulo fora provocado parcialmente por preocupações financeiras; os artífices ficaram com medo de perder o seu negócio. Mas o canto: “Grande é Ártemis dos efésios”, que prosseguiu por duas horas – por pessoas que nem sequer sabiam qual era o problema específico – mostra que o problema não era apenas dinheiro. A força da devoção religiosa aos cultos cívicos era tal que os imperadores romanos viam a vantagem de se identificarem com eles ao invés de combatê-los. Mais adiante falaremos mais sobre isso neste ensaio.

Éfeso também era um centro importante de atividade mágica, outra parte da prática religiosa do primeiro século. Em Atos 19, lemos a respeito de praticantes de magia ou feitiçaria abandonando suas práticas e queimando seus rolos na medida em que declaravam publicamente sua nova fé.

Os rolos dos efésios continham palavras e fórmulas secretas que eram usadas para forçar os deuses a cumprir as ordens de alguém. A fórmula precisa era crucial. Os praticantes buscavam riqueza, cura, ou poder; eles usavam a magia até na tentativa de obter o amor de outra pessoa. Porque também se acreditava que conhecer o verdadeiro nome de alguém era ter poder sobre essa pessoa, nomes e fórmulas eram misturados para produzir uma magia forte.

Paulo levou sua mensagem a um mundo com uma multidão de crenças religiosas, e a mensagem que ele proclamava mostrava o seu poder sobre elas. Quando olhamos para a nossa cultura com o seu espectro religioso cada vez mais pluralista, devemos nos lembrar de que também levamos o mesmo evangelho, com o mesmo poder.

Filosofia

Quando o apóstolo Paulo visitou Atenas, ele levou a mensagem de Cristo ao mercado, onde uma grande variedade de pessoas podiam ser encontradas. Entre aqueles com quem falava, estavam os filósofos epicureus e estóicos. Lemos a respeito do seu encontro com eles em Atos 17.

Quem eram estes epicureus e estóicos? Gostaria de fazer um esboço muito breve acerca das suas idéias sobre Deus, o homem e o mundo, que nos ajudará a entender por que Paulo disse o que disse.

O estoicismo e o epicurismo eram filosofias desenvolvidas para libertar as pessoas das preocupações com a vida presente.

O estoicismo era materialista e panteísta. Ou seja, os estóicos acreditavam que tudo era composto de matéria. A forma mais elevada da matéria era de natureza divina, e pervadia o universo. Eles a chamavam de várias coisas: fogo, Zeus, ou mesmo Deus. Acreditavam que este “fogo” divino, ou Deus, gerou o universo e um dia tomaria o universo de volta para si através de uma grande conflagração. Este ciclo de criação e conflagração é repetido eternamente.

O estoicismo era deste modo determinista. As coisas são do jeito que são e não podem ser mudadas. Para encontrar a verdadeira felicidade, eles acreditavam que alguém deveria entender o curso da natureza pela razão e simplesmente aceitar as coisas como são.
Em contraste com os estóicos, Paulo ensinou que Deus é pessoal, e não parte deste universo. Ele também ensinou que haveria um julgamento futuro, não uma gigantesca conflagração, levando a um outro ciclo.

Os epicureus focavam sobre a felicidade do indivíduo também, mas seguiam uma direção completamente diferente dos estóicos. Eles acreditavam que o caminho para a felicidade era através da maximização do prazer e da minimização do sofrimento. A tranqüilidade era buscada através de uma vida sossegada e contemplativa, vivida entre uma comunidade de amigos.

Os epicureus eram materialistas também, mas não eram panteístas. Eles acreditavam que o universo fora formado a partir de átomos caindo pelo espaço, que ocasionalmente colidiam uns com os outros acidentalmente, formando eventualmente as estrelas e planetas, e nós. Quando morremos, simplesmente nos dissolvemos em átomos novamente. Os epicureus acreditavam nos deuses, mas pensavam que eles fossem como os homens, só que de uma ordem superior. Os deuses residiam lá fora em algum lugar do espaço, desfrutando de uma vida de tranqüilo prazer, assim como a dos epicureus. Eles não tinham nada que ver com os homens. Além da participação em sacrifícios e rituais religiosos por finalidades estéticas, os epicureus acreditavam que os seres humanos não precisavam se preocupar com os deuses.

Contra os epicureus, Paulo ensinou que Deus está envolvido nos negócios da Sua criação, e criou-nos especificamente para buscá-Lo. Naturalmente, a doutrina de Paulo acerca de um juízo futuro não se encaixava com o pensamento deles também.

Enquanto Paulo evangelizava o mundo grego, às vezes usava sua terminologia e conceitos; ele até citava os poetas deles. Mas ele pregava uma mensagem muito diferente. Talvez nós, também, possamos encontrar uma base comum em nossa cultura, conhecendo o que as pessoas crêem e expressando o evangelho em termos que elas compreendam. Sem modificar a mensagem em si, devemos expressá-la de um modo que possa ser compreendida. Se não, passaremos um sufoco para fazer as pessoas ouvirem.

Unidade Familiar

Já demos alguma atenção à religião e filosofia do tempo de Paulo, mas e sobre as estruturas sociais do mundo greco-romano? Mais especificamente, como era a família no primeiro século?

Por volta do primeiro século a.D., o casamento era principalmente por consentimento mútuo. O historiador Everett Ferguson descreve o casamento assim: “O consentimento em viverem juntos constituía o casamento em todas as sociedades, e a procriação de filhos era o seu objetivo explícito. Os casamentos eram registrados a fim de tornar os filhos legítimos”.(2) Embora os casamentos fossem principalmente monogâmicos, o adultério era comum. O divórcio exigia apenas notificação oral ou escrita.

Os homens tinham um papel dominante na família. Eles tinham autoridade absoluta sobre seus filhos e escravos. As esposas permaneciam sob a autoridade de seus pais. Os homens ocupavam seu tempo com interesses econômicos e escapes sociais como banquetes, e os ginásios que incluíam instalações para exercícios, piscinas e salões de leitura. Estes funcionavam como centros comunitários.

Na ausência do marido, a mulher poderia conduzir seus negócios por ele. Contudo, a administração do lar era responsabilidade primária da esposa. Ferguson cita o escritor grego Apolodoro, que disse: “Temos cortesãs para prazer, criadas para o cuidado diário do corpo, esposas para produzir filhos legítimos e serem fiéis guardiãs das coisas do lar”.(3)

Contudo, as mulheres não estavam necessariamente confinadas ao lar. Algumas se engajavam em ocupações tão diversas como música, medicina e comércio. Muitas tinham ofícios públicos, e outras mantinham posições de liderança nos cultos religiosos.

Os filhos não eram considerados parte da família enquanto não reconhecidos pelo pai. Eles podiam ser vendidos ou deixados desabrigados, se não fossem desejados.

Os pais tinham a iniciativa de encontrar educação apropriada para seus filhos. As meninas podiam ir às escolas elementares, mas isto era raro. Elas aprendiam principalmente habilidades domésticas em casa. Embora a maioria dos meninos aprendesse algum ofício em casa ou através de um treinamento, eles podiam passar por uma seqüência de instrução primária, secundária e avançada, dependendo do seu status social. A memorização era um elemento fundamental na educação primária. A retórica era o tema mais importante na educação avançada.

Os escravos faziam parte da unidade familiar no Império Romano. Eles podiam ser obtidos através de diversos meios, entre os quais guerra, abandono infantil, e compra de pessoas para o pagamento de dívidas. Os escravos podiam trabalhar nas minas, em templos, em lares como mestres, ou na indústria; mantinham até mesmo posições elevadas como administradores na burocracia civil. Os escravos muitas vezes ganhavam dinheiro suficiente para comprar sua própria liberdade, embora tivessem de continuar trabalhando para os seus ex-proprietários.

Nesta sociedade, os apóstolos introduziram novas idéias a respeito do valor do indivíduo e sobre as relações familiares. Os maridos deviam ser fiéis às suas esposas e amá-las como seus próprios corpos. Os filhos deviam ser vistos como muito mais do que posses econômicas ou despesas. Os senhores eram orientados a tratar os escravos com justiça e eqüidade. As pessoas hoje em dia que injuriam o Cristianismo como sendo “opressivo” provavelmente não têm idéia do quanto ele elevou as pessoas no mundo helenista.

Moral Social

A instrução moral no mundo helenístico era encontrada mais na filosofia e no costume do que na religião. A religião era em grande parte exterior; ou seja, era uma questão mais de ritual do que de transformação interior. A filosofia procurava ensinar às pessoas como viver. Os filósofos davam muita atenção a questões como virtude, amizade e responsabilidade civil.(4)

O historiador Everett Ferguson observa que a evidência da era greco-romana indica que muitas pessoas viviam vidas muito virtuosas. Inscrições em lápides, por exemplo, incluem orações pelos maridos e esposas pela bondade e fidelidade.(5)

Apesar disso tudo, a história revela uma cultura moralmente degradada no primeiro século. Um exemplo é a imoralidade sexual. “As várias palavras na língua grega para relações sexuais”, afirma Ferguson, “sugerem uma preocupação com este aspecto da vida”.(6) Conforme notei antes, o adultério era comum. Os homens muitas vezes tinham cortesãs para o prazer físico. A homossexualidade entre jovens ou entre um homem mais velho e outro mais jovem era aceita abertamente. A prostituição do templo fazia parte de alguns cultos religiosos.

Demonstrava-se uma baixa estima da dignidade humana no mundo helenístico. Anteriormente citei a exposição de crianças ao abandono como um meio de se livrar delas. Bebês indesejados – muitas vezes meninas – eram colocados na pilha de lixo ou deixados em alguma área isolada para morrerem. Eles podiam ser apanhados para serem usados, para serem vendidos como escravos, ou para servirem como prostitutas.

A brutalidade da época era vista mais claramente nos jogos nos anfiteatros romanos. Ferguson observa que “os anfiteatros do ocidente testificam da paixão pelo sangue sob o império. Os espetáculos dos combates de gladiadores – homem contra homem, homem contra animal, e animal contra animal – atraíam multidões imensas e substituíram o drama e o atletismo grego em popularidade”.(7) Execuções eram consideradas menos excitantes do que os combates mortais. Conseqüentemente, quando execuções estavam incluídas na programação do dia, eram tipicamente realizadas durante o intervalo do almoço. Um dos meios pelos quais os criminosos eram mortos era vestindo-os em peles de animais e lançando-os a animais selvagens.

Tal brutalidade era estendida aos cristãos nos tempos de perseguição. O Livro dos Mártires de Fox registra que Nero mandou lançar os cristãos às feras. Ele também mandava banhá-los em cera, pendurar em árvores e queimar como tochas gigantes em seus jardins.(8)

Neste mundo de imoralidade e brutalidade, entrou a mensagem de amor e justiça que se encontra em Jesus. Assim como o Judaísmo antes, o Cristianismo colocou a religião e a moral juntas. Revelou o padrão de bondade de Deus e o amor sacrificial de Cristo, e forneceu o poder para alcançar esse padrão através da obra regeneradora do Espírito baseada na obra de Cristo sobre a cruz.

Hoje, ética e religião estão novamente separadas. E os resultados estão sendo vistos. Mas, assim como no primeiro século, os cristãos hoje têm uma mensagem de graça para a nossa sociedade: Deus não apenas nos diz o que é bom, Ele também nos capacita a sermos bons.

O Conflito dos Cristãos com a Cultura

Na igreja primitiva, o caráter dos cristãos era muito importante para obterem audiência e ganharem convertidos quando corajosamente dessem testemunho da sua nova fé.

Como eram estes cristãos? O escritor da Epístola a Diogneto, escrita provavelmente no começo do segundo século, disse o seguinte a respeito deles: “Eles se casam como todos; têm filhos, mas não destroem sua prole. Eles têm uma mesa comum, mas não uma cama comum. Eles estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Eles passam seus dias na terra, mas são cidadãos do céu. Eles obedecem às leis prescritas, e ao mesmo tempo superam as leis através de suas vidas. Eles amam a todos os homens, mas são perseguidos por todos”.(9)

Se suas vidas eram de natureza tão exemplar, o que colocava os cristãos em tantos problemas? Dois dos fatores mais importantes eram a sua relutância em participar dos rituais religiosos e a sua recusa em se curvar diante das imagens dos imperadores.

Anteriormente citei a importância dos cultos cívicos religiosos no mundo helenístico. As pessoas acreditavam que os deuses exigiam seus sacrifícios e outras observâncias; caso contrário, ficaram furiosos e descarregariam sua ira nas pessoas como um todo. Os cristãos se recusando a participar era arriscar enfurecer os deuses.

O outro fator era a questão do culto ao imperador. Quando Roma conquistou o mundo ocidental, os governantes viram quão importante era a religião para o povo. Ao invés de combatê-la, tiraram proveito dela colocando imagens dos imperadores romanos em lugares de culto com as outras divindades. Isto não era um grande problema para os gregos. Além do fato de que os romanos eram seus governantes, os gregos não eram exclusivistas em seu culto. Adorar uma divindade não impedia a adoração de outras também.

Para os cristãos, contudo, Jesus era o Senhor; não podia haver outros deuses além dEle, e eles não poderiam se curvar diante de ninguém que alegasse autoridade divina, inclusive o imperador. Contudo, como nas mentes dos romanos o imperador representava o estado, recusar a curvar-se diante de sua imagem era ser um inimigo do estado.

Assim, por causa de sua recusa em participar destas atividades, os cristãos foram chamados de ateus e inimigos do estado. Seu comportamento era desconcertante para os seus vizinhos. Por que eles não podiam simplesmente dissimular? Conforme já observei, a religião era não-exclusivista. O povo não acreditava necessariamente nos deuses aos quais faziam sacrifícios, de qualquer maneira. E, como havia pouca ou nenhuma relação entre religião e ética, as atividades religiosas de um indivíduo normalmente não afetavam a sua vida moral. Então, por que os cristãos não podiam simplesmente jogar lado a lado? A razão por que não podiam era porque curvar-se diante dos imperadores ou dos deuses seria cometer idolatria, que era o pecado fundamental na igreja primitiva.

Os cristãos da igreja primitiva tinham de decidir onde podiam conformar-se à sua sociedade, e onde não podiam. Havia uma diferença de opinião quanto ao que era apropriado e o que não era. Mas estava claro que qualquer que quisesse ser identificado como um cristão tinha de traçar a linha aqui: Jesus é o Senhor, e não há outro.

Notas

1. Everett Ferguson, Backgrounds of Early Christianity, 2nd ed. (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1993), 188.
2. Ibid., 68.
3. Ibid., 70-71. 
4. Ibid., 303.
5. Ibid., 64.
6. Ibid.
7. Ibid., 94.
8. Foxe's Book of Martyrs, (Old Tappen, New Jersey: Spire Books, 1968), 13.
9. Michael Green, Evangelism in the Early Church (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1970), 136.

© 1997 Probe Ministries International
Fonte: Probe Ministries (www.probe.org)
Tradução: Rodrigo Reis de Faria

terça-feira, 7 de agosto de 2012

História e Fé Cristã


Michael Gleghorn


A Importância da História

Podemos realmente saber alguma coisa sobre o passado? Por exemplo, podemos realmente saber se Nabucodonosor foi o rei da Babilônia no século sexto a.C., ou se Jesus de Nazaré foi uma pessoa histórica real, ou se Abraham Lincoln fez o Discurso de Gettysburg? Embora estas possam parecer questões que interessariam apenas a historiadores profissionais, na verdade elas são importantes para os cristãos também.

Mas, por que os cristãos deveriam se preocupar com tais questões? Bem, porque a veracidade da nossa fé depende de certos eventos que realmente aconteceram no passado. Como o teólogo britânico Alan Richardson declarou:

A fé cristã é ... uma fé histórica ... está em estreita ligação com certos acontecimentos no passado, e se estes acontecimentos pudessem ser provados como nunca tendo acontecido ... então a ... fé cristã ... revelar-se-ia edificada sobre areia.(1)

Considere um exemplo. Os cristãos crêem que Jesus morreu na cruz pelos pecados do mundo. Agora, para que seja possível até que esta crença seja verdadeira, a crucificação de Jesus deve ter ocorrido na história. Se o relato da morte de Jesus na cruz é meramente lendário, ou de qualquer modo não-histórico, então a proclamação cristã de que ele morreu na cruz pelos nossos pecados não pode ser verdadeira. Como T. A. Roberts observou:

A verdade do Cristianismo está ancorada na história: por isso o ... reconhecimento de que se alguns ... dos eventos sobre os quais se pensa tradicionalmente que o Cristianismo está baseado pudessem ser provados como não históricos, então as reivindicações religiosas do Cristianismo estariam seriamente em perigo.(2)

O que realmente aconteceu no passado, portanto, é extremamente importante para o Cristianismo bíblico. Mas isto levanta uma questão importante: Como podemos realmente saber o que aconteceu no passado? Como podemos saber se as coisas sobre as quais lemos em nossos livros de história realmente aconteceram algum dia? Como podemos saber se Jesus realmente foi crucificado, como os escritores do Evangelho dizem que foi? Nós não estávamos lá para observar pessoalmente estes eventos. E (ao menos por enquanto) não existe uma máquina do tempo pela qual possamos visitar o passado e ver por nós mesmos o que realmente aconteceu. Os eventos do passado já se foram. Eles não estão mais diretamente disponíveis para estudo. Então, como podemos realmente saber o que aconteceu?

Para o cristão, tais questões nos confrontam com o problema de se o conhecimento genuíno do passado é possível, ou se estamos condenados para sempre a sermos céticos sobre os eventos históricos registrados na Bíblia. No restante deste artigo, espero demonstrar que deveríamos realmente ser céticos, particularmente com os argumentos dos céticos que dizem que não podemos conhecer nada a respeito do passado.

O Problema do Passado Inobservável

Não deveria nos surpreender que a verdade do Cristianismo dependa de certos eventos que realmente aconteceram no passado. O apóstolo Paulo disse aos coríntios: “Se Cristo não ressuscitou, nossa pregação é vã, e é vã a vossa fé” (1 Coríntios 15:14). Para Paulo, se a ressurreição corporal de Jesus não foi um evento histórico real, então a fé em Cristo era inútil. O que aconteceu no passado, portanto, é importante para o Cristianismo.

Mas alguns estudiosos insistem que nunca podemos realmente saber o que aconteceu no passado. Esta visão, chamada de relativismo histórico radical, nega que o conhecimento real, ou objetivo, do passado seja possível. Isto representa um desafio para o Cristianismo. Como o filósofo cristão Ronald Nash observa, “... o ceticismo sobre o passado que deve resultar de um relativismo histórico total enfraqueceria seriamente um dos maiores fundamentos apologéticos do Cristianismo”.(3)

Mas por que alguém seria cético sobre a nossa capacidade de conhecer ao menos alguma verdade objetiva sobre o passado? Uma razão tem que ver com a nossa incapacidade de observar diretamente o passado. O falecido Charles Beard notou que, ao contrário do químico, o historiador não pode observar diretamente os objetos de seu estudo. Seu único acesso ao passado vem através dos registros e artefatos que têm sobrevivido até o presente.(4)

Certamente existe alguma verdade nisto. Mas por que a incapacidade do historiador de observar diretamente o passado quer dizer que ele não possa ter conhecimento genuíno do passado? Beard contrasta o historiador com o químico, implicando que o último tem conhecimento objetivo da química. Mas é importante lembrar que os químicos individuais não adquirem todo o seu conhecimento através da observação científica direta. Na verdade, boa parte dela vem pela leitura de artigos publicados por outros químicos, artigos que funcionam de modo bem parecido com os documentos históricos do historiador!(5)

Mas o químico pode realmente obter conhecimento objetivo lendo tais artigos? Parece que sim. Suponha que um químico comece trabalhando em um novo problema baseado nos resultados cuidadosamente estabelecidos de experimentos anteriores. Mas, suponha que ele não tenha conduzido pessoalmente todos estes experimentos; ele meramente leu a respeito deles em publicações científicas. Qualquer conhecimento não verificado diretamente pelo químico seria conhecimento indireto.(6) Mas isso não está completamente desprovido de objetividade por essa razão.

Embora o conhecimento histórico possa ficar aquém da certeza absoluta (assim como invariavelmente a maior parte do nosso conhecimento), isto não o torna completamente subjetivo ou arbitrário. Além disso, visto como a maior parte do que sabemos não parece estar baseado em observação direta, nossa incapacidade de observar diretamente o passado não pode (ao menos em si mesma) tornar impossível o conhecimento genuíno da história. Em última análise, então, este argumento em favor do relativismo histórico simplesmente não é convincente.

O Problema da Perspectiva Pessoal

Eu conversei recentemente com um jovem que me disse que ele obtém suas notícias de três fontes diferentes: CNN, FOX e a BBC. Quando lhe perguntei o porquê, ele me disse que cada estação tem a sua perspectiva particular. Por isso ele escuta todas as três a fim de (esperançosamente) chegar a uma compreensão mais objetiva do que realmente está acontecendo no mundo.

É interessante que um problema semelhante tem sido observado na escrita da história. Os relativistas históricos argumentam que nenhum historiador pode ser completamente imparcial e neutro em sua descrição do passado. Ao invés disso, tudo o que ele escreve, desde a seleção dos fatos históricos até as conexões que ele vê entre esses fatos, é influenciado pela sua personalidade, valores e até preconceitos. Cada obra de história (inclusive os livros históricos da Bíblia) é considerada como tendo sido escrita a partir de um único ponto de vista. É relativa à perspectiva de um autor particular e, por isso, não pode ser objetiva.

Como os cristãos deveriam responder a isto? Os escritores bíblicos registraram com segurança o que aconteceu no passado? Ou os seus escritos são tão influenciados pelas suas personalidades e valores que não podemos nunca saber o que realmente aconteceu? Bem, provavelmente é verdade que cada obra de história, assim como cada história em um jornal, é colorida (ao menos até certo ponto) pela visão de mundo do autor. Neste sentido, objetividade absoluta é impossível. Mas será que isto significa que o relativismo histórico é verdadeiro? Não, de acordo com Norman Geisler. Ele escreve:

Objetividade perfeita pode ser praticamente inatingível dentro dos recursos limitados do historiador sobre a maioria, se não todos os temas. Mas ... a incapacidade de alcançar 100 por cento de objetividade é um longo caminho até a relatividade total.(7)

Embora os historiadores e relatores possam escrever da perspectiva de uma visão de mundo particular, não decorre que eles sejam completamente incapazes de ao menos alguma objetividade. Na verdade, existem certas salvaguardas que realmente ajudam a garantir isto. Suponha que um historiador escreva que o rei Nabucodonosor da Babilônia não capturou Jerusalém no século sexto a.C. Sua tese pode ser desafiada e corrigida com base na evidência histórica e arqueológica disponível que indica que Nabucodonosor fez isto de fato. Semelhantemente, se um jornal publicar uma história que mais tarde se revele incorreta, ele poderia ser forçado a publicar uma retratação.

Embora a objetividade completa em história possa ser impossível, um grau suficiente de objetividade pode ser alcançado porque a obra do historiador está sujeita a correção à luz da evidência. O problema da perspectiva pessoal, então, não leva inevitavelmente ao relativismo histórico total. Portanto, objeções à confiabilidade histórica da Bíblia que estejam baseadas neste argumento não são definitivamente persuasivas.

Problemas com o Relativismo Histórico

Temos visto que o relativismo histórico nega que possamos conhecer a verdade objetiva sobre o passado. Embora isto represente um desafio para o Cristianismo bíblico, os argumentos oferecidos em apoio a esta posição não são muito convincentes. Não apenas os argumentos em apoio não são convincentes, mas os argumentos contra esta posição são devastadores. Vejamos apenas dois.

Primeiro, existem muitos fatos da história sobre os quais virtualmente todos os historiadores estão de acordo – independentemente da sua visão de mundo. Por exemplo, que historiador responsável negaria seriamente que George Washington foi o primeiro presidente dos Estados Unidos, ou que Abraham Lincoln pronunciou o Discurso de Gettysburg? Como certo relativista histórico admitiu, “existem fatos básicos que são os mesmos para todos os historiadores”.(8) Mas considere o que isto significa. Se um cristão, um budista, um ateísta e um muçulmano pudessem todos concordam com certos fatos básicos da história, então resultaria que ao menos algum conhecimento objetivo da história é possível. Mas, neste caso, o relativismo histórico total é falso, pois nega que tal conhecimento seja possível.

Outra razão para rejeitar o relativismo histórico é que ele torna impossível distinguir a boa história da história pobre, ou a história genuína da propaganda. Como Dr. Ronald Nash observa, “se o relativismo forte fosse verdadeiro, qualquer distinção entre a verdade e o erro na história desapareceria”.(9) Apenas pense no que isto significaria. Não haveria nenhuma diferença real entre história e ficção histórica! Além disso, não haveria nenhuma base legítima para criticar teorias históricas obviamente falsas. Isto revela que algo está errado com o relativismo histórico, pois, como Dr. Craig nos lembra, “todos os historiadores distinguem a boa história da pobre”. Por exemplo, ele recorda como Immanuel Velikovsky tentou “reescrever a história antiga com base em catástrofes de âmbito mundial causadas por forças extraterrestres ... rejeitando reinos antigos e línguas inteiras como fictícias”.(10)

Como os historiadores reagiram a tais idéias? De acordo com Edwin Yamauchi, que escreveu uma análise crítica detalhada da teoria, a maioria dos historiadores foram “bastante hostis” à obra de Velikovsky.(11) Eles se irritaram com o seu insensível desprezo pela evidência histórica real. De modo semelhante, basta lembrarmos da tremenda resposta crítica a algumas das mais ultrajantes alegações de Dan Brown em O Código Da Vinci. É importante notar que, quando os estudiosos criticam as teorias de Velikovsky e Brown, eles reconhecem tacitamente “a objetividade da história”.(12) Seu criticismo mostra que eles vêem estas teorias como falhas porque elas não correspondem ao que realmente aconteceu no passado.

Determinando a Verdade na História

Como podemos determinar o que realmente aconteceu no passado? Existe algum modo de separar o “trigo” do “joio”, por assim dizer, quando se trata de avaliar interpretações concorrentes de uma pessoa ou evento histórico particular? Por exemplo, se um escritor afirma que Jesus era casado, e outro afirma que não, como podemos determinar qual das afirmações é verdadeira?

Bem, como você provavelmente já pensou, o problema na verdade desce até a evidência. Pela informação a respeito de Jesus, virtualmente todos os estudiosos concordam que a nossa evidência mais valiosa vem dos Evangelhos do Novo Testamento. Cada um destes documentos pode ser seguramente datado do primeiro século, e “os eventos que registram estão baseados ou em testemunho ocular direto ou indireto”.(13) Assim, eles representam nossas melhores e mais antigas fontes de informação a respeito de Jesus.

Mas, ainda que limitemos nossa discussão a estas fontes, diferentes estudiosos ainda chegam a diferentes conclusões a respeito da situação conjugal de Jesus. Mais uma vez, como podemos determinar a verdade? Poderíamos empregar um modelo conhecido como inferência para a melhor explicação. Em poucas palavras, este modelo afirma que “o historiador deveria aceitar a hipótese que melhor explica toda a evidência”.(14) Ora, reconhecidamente, esta não é uma ciência exata. Mas, como Dr. Craig nos lembra, “o objetivo do conhecimento histórico é obter probabilidade, não certeza matemática”.(15) Exigir mais do que isso da história é simplesmente fazer exigências desarrazoadas. Até mesmo em um tribunal, devemos estar contentes com a prova além de uma dúvida razoável – não além de toda dúvida possível.(16)

Tendo estas coisas em mente, será que a evidência apóia melhor a hipótese de que Jesus era, ou não, casado? Se estiver interessado em tal discussão, eu recomendaria fortemente o recente livro de Darrell Bock, Quebrando o Código Da Vinci. Após um cuidadoso exame da evidência, ele conclui que Jesus definitivamente não era casado – uma conclusão compartilhada pela vasta maioria dos estudiosos do Novo Testamento.(17)

É claro que não estou tentando argumentar que este problema possa ser decisivamente resolvido simplesmente pela citação de uma autoridade (embora eu esteja sem dúvida de acordo com a conclusão de Dr. Bock). Antes, o meu ponto é que temos um modo de determinar a verdade na história. Avaliando cuidadosamente a melhor evidência disponível, e inferindo logicamente a melhor explicação dessa evidência, podemos determinar (às vezes com alto grau de probabilidade) o que realmente aconteceu no passado.

O Cristianismo é uma religião arraigada na história. Não uma história sobre a qual não possamos ter uma compreensão real, mas uma história que podemos conhecer e estar confiantes para crer.

Notas

1. Alan Richardson, Christian Apologetics (London: SCM, 1947), 91, cited in Ronald H. Nash, Christian Faith and Historical Understanding (Dallas: Word Publishing/Probe Books, 1984), 12.
2. T. A. Roberts, History and Christian Apologetic (London: SPCK, 1960), vii, cited in Nash, Christian Faith and Historical Understanding, 12.
3. Nash, Christian Faith and Historical Understanding, 77-78.
4. Esta informação vem da discussão de Ronald Nash sobre o ensaio de Charles Beard, "That Noble Dream," em Nash, Christian Faith and Historical Understanding, 84.
5. William Lane Craig, Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics (Wheaton: Crossway Books, 1994), 176.
6. Nash, Christian Faith and Historical Understanding, 85.
7. Norman Geisler, Christian Apologetics (Grand Rapids, Baker, 1976), 297, citado em Nash, Christian Faith and Historical Understanding, 88-89.
8. E.H. Carr, What is History? (New York: Random House, 1953), 8, citado em Craig, Reasonable Faith, 185.
9. Nash, Christian Faith and Historical Understanding, 88.
10. Craig, Reasonable Faith, 186-87.
11. Edwin Yamauchi, "Immanuel Velikovsky's Catastrophic History," Journal of the American Scientific Affiliation 25 (1973): 134, citado em Craig, Reasonable Faith, 187.
12. Craig, Reasonable Faith, 187.
13. Lee Strobel, The Case for Christ, (Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1998), 25.
14. Craig, Reasonable Faith, 184.
15. Ibid.
16. Ibid.
17. Darrell L. Bock, Breaking the Da Vinci Code (Nashville: Nelson Books, 2004), 31-45. Confira também o meu artigo anterior, "Redeeming The Da Vinci Code," em www.probe.org/redeeming_davinci.

© 2005 Probe Ministries
Fonte: Probe Ministries (http://www.probe.org)
Tradução: Rodrigo Reis de Faria

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A Conquista de Canaã: Quando e Como?


Garry K. Brantley, M.A., M.Div.


A descrição bíblica da conquista de Canaã esteve envolta em uma nuvem de dúvidas durante muitos anos. Como e quando aconteceu este evento monumental são questões que continuam a prender a atenção acadêmica e a criar controvérsia. Se aceitamos como factual a descrição bíblica da conquista, estas questões não são difíceis de responder. Em alguns casos, a conquista não foi completa (Juízes 1:27-36), o que levou a uma desconfortável coabitação com a população nativa. Contudo, a Bíblia é clara no sentido de que uma impressionante campanha militar resultou em uma violenta incursão em Canaã (Josué 11:15-23).

Adicionalmente, a Bíblia apresenta alguns critérios cronológicos sobre quando aconteceu a conquista. De acordo com 1 Reis 6:1, passaram-se 480 anos entre o Êxodo e o quarto ano do reinado de Salomão – o ano em que ele começou a construir o templo. Podemos datar o reinado de Salomão com segurança razoável em 971 a 931 a.C., o que situa o seu quarto ano de reinado em 967 a.C. Estes números, portanto, sugerem que o Êxodo aconteceu por volta de 1447 a.C. Admitindo os 40 anos de peregrinação anterior à invasão de Canaã pelos israelitas, os passos iniciais da conquista ocorreram cerca de 1407 a.C. Além disso, Juízes 11:26 fornece outro marco cronológico. Este texto indica que os israelitas haviam ocupado Canaã durante 300 anos antes do tempo de Jefté, que é comumente datado de 1100 a.C. Uma vez mais, usando estes números, a conquista teria ocorrido por volta de 1400 a.C. (vede Bimson e Livingston, 1987, 13[5]:42).

Desafios ao Registro Bíblico

Dada a informação acima, poderia parecer que a questão da conquista é um assunto simples, com pouco espaço para controvérsia. Mas não! Existem, primariamente, duas áreas de desacordo entre o texto bíblico e os atuais modelos acadêmicos da conquista.

O Tempo da Conquista

Na virada do século, a data biblicamente consistente de 1400 a.C. era geralmente aceita para a conquista. Como regra, os estudiosos consideravam a Bíblia como o padrão para a verdade histórica, embora a escola crítico-histórica, a qual questionava a integridade das Escrituras, estivesse fazendo o seu marco acadêmico (vede Brantley, 1994). Isto começou a mudar nos anos de 1930, quando John Garstang e William F. Albright escavaram Jericó e Betim, respectivamente.

Inicialmente, tanto Garstang como Albright sustentavam a data mais antiga da conquista (1400 a.C.). Contudo, durante as escavações em Betim, que ele assumiu como a Betel bíblica, Albright hesitou e finalmente passou para uma data mais recente para a conquista (c. 1250 a.C.; Albright, 1957, p. 13). Ele fez esta revogação porque atribuíra um espesso nível de destruição em Betim, que datou de aproximadamente 1250 a.C., aos israelitas invasores (embora a Bíblia não mencione Betel entre as cidades que Israel destruiu; vede Livingston, 1988, 1[3]:14). Devido a esta evidência e achados similares em outros sítios, unidos à influência penetrante de Albright, a data de 1220 a 1230 a.C. para a conquista tem prevalecido desde os anos de 1950 (cf. Hester, 1962, p. 139; Stiebing, 1985, 11[4]:58-69).

As meticulosas e prolongadas escavações de Kathleen Kenyon em Jericó (1952-1958) embaraçaram ainda mais estas linhas cronológicas outrora claras. John Garstang encontrou evidência biblicamente consistente nas ruínas de Jericó de que houvera uma violenta conflagração naquele local por volta de 1400 a.C., a qual ele atribuía aos israelitas. As conclusões de Kenyon, porém, contradiziam veementemente as interpretações de Garstang. Ela datava este nível de destruição em 1550 a.C., e disputava que não houvera nenhuma cidade com muralhas protetoras para os israelitas destruírem em 1400 a.C. (Kenyon, 1957, p. 259). Adicionalmente, e em harmonia com Garstang, ela não descobriu nenhuma evidência de atividade ocupacional naquele sítio no século 13 a.C. – o período em que a maioria dos estudiosos modernos acredita que a conquista realmente aconteceu. Por isso, as conclusões de Kenyon não apoiavam nem a data antiga (1400 a.C.), nem a data recente de uma conquista militar (1230-1220 a.C.).

O Método da Conquista

Estas discordâncias cronológicas sobre a conquista geraram disputas metodológicas em relação a este evento. Como exatamente Israel apareceu em Canaã? Conforme observado, a Bíblia indica que houvera uma incursão militar em grande escala na Palestina. Este cenário bíblico, porém, tem sido descartado por um crescente número de arqueólogos que defendem que tal invasão israelita de Canaã é inconsistente com o registro arqueológico (vede Silberman, 1992). Na verdade, alguns estudiosos argumentam que não existe absolutamente nenhuma factualidade para a conquista descrita biblicamente. Para eles, as histórias de cidades conquistadas (como Jericó) eram embelezamentos de tradições pré-israelitas, que forneciam uma explicação mitológica da origem de Israel na, e para o direito à terra (Cross, 1992, 8[5]:24).

Em consonância com esta visão, William Dever, dirigindo-se a uma prestigiosa assembléia acadêmica, argumentou que os eventos centrais na história de Israel – o Êxodo, a peregrinação no deserto, a conquista militar, a entrega miraculosa de Deus de cidades cananéias fortificadas, e a outorga da terra – não aconteceram assim de modo algum. Dever concluiu que o relato da Bíblia neste respeito é simplesmente infundado e errado (Shanks, 1987, 13[2]:54-55).

Entre esses estudiosos que mantêm uma visão baixa da confiabilidade histórica da Bíblia, existem duas teorias populares que explicam a aparição de Israel em Canaã. A primeira é o modelo da “infiltração pacífica”, que é associada aos estudiosos alemães Albrecht Alt e Martin Noth. Apelando para os registros egípcios antigos (p.e., as cartas de Tell el-Amarna), eles concluíram que a colonização israelita de Canaã foi devida a uma imigração gradual para a terra, não uma ofensiva militar. Alt e Noth teorizaram ainda que os israelitas deviam ser pastores nômades que lentamente se moveram para terra fixa a partir do deserto, procurando pastos para os seus rebanhos. Após um longo período de coexistência desconfortável com a população nativa, os israelitas eventualmente excederam, e destruíram, as cidades-estados cananéias (Silberman, 1992, 2:25; vede Zertal, 1991). Esta teoria da “infiltração pacífica” tem obtido popularidade e influência através dos anos, mas está claramente em desacordo com o registro de Josué.

Segundo, os esforços combinados de George Mendehall e Norman Gottwald introduziram e popularizaram a teoria da “revolta camponesa” que, na realidade, redefine a origem étnica da nação israelita. Este modelo sugere que não houve nenhuma conquista externa de Canaã; ela foi um movimento de libertação nativo entre camponeses cananeus oprimidos que viviam na zona campestre. Estes camponeses, que formavam o nível mais baixo da ordem social altamente estratificada de sua cultura, se envolveram em uma rebelião igualitária, derrubaram seus chefes urbanos, e tornaram-se “israelitas”. Esta teoria, que repudia o cenário bíblico, tem seus sinceros defensores que argumentam que é a mais compatível com os dados arqueológicos (vede Shanks, 1987, 13[2]:55).

Problemas com as Teorias

Embora estas teorias anti-bíblicas tenham adquirido popularidade em certos círculos, e seus advogados falem com voz autoritária, elas têm algumas dificuldades significativas. Primeiro, estas teorias devem explicar a tradição bíblica em contrário. Aderentes destas visões argumentam que os dados arqueológicos – não a informação textual – devem ser primários. Em harmonia com isto, as interpretações arqueológicas têm precedência sobre, e em detrimento do texto bíblico. Contudo, permanece o fato de que, ainda que se rejeite a sua inspiração divina, a Bíblia é uma testemunha histórica antiga. Por virtude deste fato, ela deveria ser levada a sério como qualquer outro documento da antiguidade. Varrer para o lado o relato bíblico como uma “fraude piedosa” simplesmente não bastará.

Segundo, existem arqueólogos de reputação que percebem que essas teorias são inconsistentes com a evidência. Abraham Malamat, por exemplo, argumentou que a evidência arqueológica demonstra que diversas cidades cananéias foram destruídas, e subsequentemente ocupadas, pelos israelitas (1982, 8[2]:24-35). Adicionalmente, Yigael Yadin, falecido e famoso arqueólogo, sugeriu que o quadro pintado pelas descobertas arqueológicas é consistente com o retrato bíblico: cidades cananéias fortificadas foram destruídas e substituídas por uma nova cultura (1982, 8[2]:19). Embora estes arqueólogos estivessem/estejam comprometidos com uma data recente da conquista, e admitissem alguns erros em detalhes bíblicos, suas interpretações da evidência física apóiam o esboço geral da apresentação bíblica da conquista. Assim, a evidência arqueológica em apoio às teorias da “infiltração pacífica” ou da “revolta camponesa” não é tão conclusiva como alguns gostariam de sugerir. Com efeito, Max Miller, da Emory University, opinou que a ampla variedade de visões a respeito das origens israelitas na Palestina, com cada visão apelando ao apoio arqueológico, ilustra que “... a evidência arqueológica é ambígua, ou essencialmente neutra, sobre o assunto” (1987, 50:60). Em suma, a natureza limitada da inquirição arqueológica proíbe uma rejeição dogmática do registro bíblico acerca da conquista.

Evidências em favor da Historicidade Bíblica

À luz do precedente, devemos perguntar: Existe algum apoio para que a conquista acontecesse quando e como a Bíblia diz que aconteceu? Tendo em mente a natureza limitada da evidência arqueológica, existe uma grande massa de dados que apóiam o relato bíblico. Arqueólogos geralmente reconhecem a forte importância de inscrições antigas, conforme evidenciado pela agitação sobre um fragmento de pedra inscrita achado recentemente em Dan (vede Shanks, 1994; Wood, 1993). Dados artesanais (p.e., fragmentos de cerâmica, equipamentos de guerra, arquitetura, etc.) tipicamente são inconclusivos sobre questões históricas, e estão sujeitos a uma ampla variedade de interpretações (Miller, 1987). Existe, porém, um corpo impressionante de literatura antiga que dá apoio à descrição bíblica da conquista, a qual inclui as seguintes.

Mapas Egípcios Antigos

A Bíblia fornece informação específica a respeito das localidades em que os israelitas se acamparam no estágio final da rota do Êxodo, logo antes de sua entrada em Canaã. Números 33 descreve em detalhes a rota norte transjordaniana que os israelitas tomaram enquanto viajavam para o local em que miraculosamente passaram a vau o rio Jordão. Diversos lugares são mencionados em sua jornada desde a região desolada ao sul do Mar Morto até as planícies de Moabe: (1) Abarim; (2) Dibom-Gade; (3) Almom-Diblataim; (4) região do monte Nebo; (5) Abel-Sitim; e (6) o rio Jordão. A especificidade e precisão extraordinárias deste texto tornou-o vulnerável ao criticismo.

Alguns historiadores críticos sugerem que esta lista demonstra a imprecisão histórica dos escritores bíblicos, visto que não existe nenhuma indicação arqueológica de que estas cidades existiram nesse período. Por exemplo, esforços de escavação em Tell Dhiban (a Dibom-Gade mencionada em Números 33:45b-46a) indicam que não havia nenhuma cidade nesse sítio na Idade do Bronze Tardia II (c. 1400-1200 a.C.). Embora alguns vestígios datando de aproximadamente 1200 a 1100 a.C. fossem descobertos no cume do monte, não há nenhuma evidência de que uma cidade existisse ali antes do nono século a.C. Isto tem levado alguns a concluir que os “... escritores bíblicos nada sabiam sobre os eventos na Palestina antes do décimo século a.E.C.” (antes da Era Comum [a.E.C.] é um modo religiosamente neutro de se referir à história antes de Cristo [a.C.], atualmente empregado por muitos estudiosos – nota do autor) (Gosta Ahlstrom, conforme citado em Krahmalkov, 1993, 20[5]:55-62, 79).

Embora nenhuma evidência física ainda tenha sido encontrada para confirmar esta localidade, há um impressionante testemunho literário da sua presença neste período. Durante a Era do Bronze Tardia (c. 1560-1200 a.C.), o Egito governou a Palestina. No curso de sua jurisdição de 300 anos sobre esta região, o Egito mapeou exaustivamente a área, inclusive as estradas principais para a Palestina. Entre os antigos mapas está uma rota importante, continuamente usada através da Transjordânia, ligando o Arabá às Planícies de Moabe. Três mapas parciais descrevendo esta estrada têm se preservado. Embora nenhum mapa individual esteja completo, cada um fornece informação suplementar, apresentando uma descrição razoavelmente completa desta estrada. É interessante que estes mapas mencionam quatro paradas do sul ao norte: Abarim-Dibom-Abel-Jordão – a ordem exata em que estes nomes aparecem na Bíblia (Krahmalkov, 1994, 20[5]:57). Estes documentos egípcios antigos corroboram a descrição bíblica.

A Estela de Merneptah

O famoso egiptólogo, William F. Petrie, descobriu a Estela de “Israel” do rei Merneptah em Tebas, em 1896. Esta estela (um monumento de pedra inscrito), que data de c. 1210 a.C., contém a única referência extrabíblica existente a Israel no período pré-monárquico. A estela contém um elogio poético que louva as façanhas militares de Merneptah (vede Pritchard, 1958, p. 231). De especial interesse é o contexto em que “Israel” é mencionado. A inscrição traz dois agrupamentos importantes de localidades cuja destruição é atribuída a Merneptah. O primeiro é um grupo de quatro cidades-estados: Canaã (nome egípcio de Gaza), Asquelom, Gezer e Yeno’am. O segundo grupo, que aparece antes e depois destas cidades-estados isoladas, lista os nomes de entidades nacionais, como Tehenu (Líbia), Hatti (Hititas) e Kharu (uma designação geral para a Síria-Palestina; Wood, 1989).

É neste segundo grupo que aparece o nome Israel, sugerindo que era considerado uma entidade nacional no nível dos poderosos hititas. Em harmonia com isto, lá por volta de 1210 a.C., este monumento egípcio dava a Israel uma medida de reputação internacional. A importância desta implicação não pode ser superestimada. A data geralmente aceita para a conquista é de cerca de 1230-1220 a.C. Contudo, a Estela de Merneptah implica que em 1210 a.C. Israel estava bem estabelecido em Canaã, e era uma força formidável para se enfrentar. Alguns objetores assinalam que a propósito exclusivo da Estela de Merneptah era engrandecer a campanha militar deste rei, e não deveria ser considerada como historicamente exata. Embora este fosse o propósito da inscrição, o caso ainda é que Israel fora notado como uma força formidável em Canaã. Certamente, Merneptah teria ganhado pouco prestígio orgulhando-se por conquistar um desunido e insignificante bando de pastores nômades! A Estela de Merneptah é um poderoso testemunho de que a conquista aconteceu quando a Bíblia diz que aconteceu (cf. Archer, 1974, p. 181; Wood, 1991, 4:110).

As Cartas de Tell el-Amarna

Em 1887, um camponês egípcio casualmente descobriu um grande depósito de tabuinhas de barro em Tell el-Amarna. Datando de 1400-1370 a.C., essas tabuinhas estavam escritas em cuneiforme acádico (escrita em formato de cunha) – a língua então aceita para correspondência internacional. As tabuinhas eram cartas urgentes enviadas de reis cananeus para o rei egípcio, solicitando assistência militar imediata para lidar com ferozes invasores. Estas cartas também refletem uma receosa desunião entre os vários reis cananeus, e uma ávida disposição em abandonarem a sua aliança egípcia e tornarem-se politicamente afiliados aos invasores habiru ou ‘apiru (vede Pritchard, 1958, p. 276). Muitos estudiosos associam os habiru aos hebreus bíblicos (cf. Archer, 1974, pp. 271-279; Harrison, 1969, 318-322).

Assim, uma análise destes documentos sugere que eles refletiam uma perspectiva cananéia da conquista israelita. Existem alguns paralelos significativos entre a informação geral destas cartas e a narrativa bíblica. Um comunicado de Megido mencionava que diversas cidades localizadas na região de Arade, ao sul, já haviam caído aos invasores. De acordo com Números 21:1-3, os israelitas destruíram muitas cidades nesta região sul. Além disso, não havia sido encontrada nenhuma carta das primeiras cidades destruídas durante a incursão israelita (p.e., Jericó, Gibeão, et al.).

Se os habiru mencionados nas cartas de Tell el-Amarna eram realmente os invasores hebreus (e há boas razões para crer que eram), então estes documentos fornecem confirmação secular à descrição bíblica da conquista, tanto cronológica como metodicamente. Visto que estas cartas datam de 1400 a.C., elas sugerem que os passos iniciais da conquista aconteceram no século 15, e não 13 a.C. Adicionalmente, elas corroboram a visão de uma infiltração militar concentrada em Canaã. Em ambos os casos, elas apóiam o registro bíblico da conquista.

Conclusão

Sem dúvida, as interpretações dos dados arqueológicos e o texto bíblico continuarão a ocasionalmente entrar em choque, primariamente porque a nova geração de arqueólogos bíblicos dá mais importância a descobertas do que ao texto. Em harmonia com isto, na estimativa de alguns, a arqueologia servirá para criticar, iluminar e corrigir a Bíblia, mas a questão da confirmação bíblica não é mais uma preocupação geral (Davis, 1993). A evidência acima, contudo, demonstra que a arqueologia tem fornecido sólida evidência em apoio à confiabilidade histórica da Bíblia.

Contudo, devemos sempre ter em mente as limitações da inquirição arqueológica e a natureza muitas vezes inconclusiva de sua evidência. Tais dados podem ser ambíguos, e sujeitos a uma variedade de interpretações. Portanto, deveríamos ouvir com cuidadoso ceticismo, quando as interpretações dos arqueólogos discordam da informação bíblica (vede Brantley, 1993). Ademais, embora em muitos casos a confiabilidade histórica da Bíblia tenha sido confirmada pela pá do arqueólogo, a falta de tal evidência não prova que a Bíblia esteja errada. E o mais importante, devemos reconhecer que, embora a Bíblia ofereça informação valiosa e historicamente exata, seu propósito primário é proclamar a soberania de Deus, Que é o Senhor da história. É um volume que afirma a atividade divina na história humana, cuja veracidade a arqueologia é inadequada para julgar. Pela fé, reconhecemos que o mesmo Deus Que tirou os israelitas do Egito, e lhes deu a terra prometida, ainda é o Senhor soberano da nossa própria história – inclusive nestes tempos preocupantes.

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Fonte: Apologetics Press (www.apologeticspress.org)
Tradução: Rodrigo Reis de Faria